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Apesar de tom polemista, 'Crítica da Vítima' nos expõe a confrontos importantes

Daniele Giglioli tematiza a hipertrofia da condição de vítima e sua conversão em ideologia sedutora

LAURA ERBER

Crítica da Vítima

  • Preço R$ 39 (177 págs.)
  • Autor Daniele Giglioli
  • Editora Âyiné
  • Tradução Pedro Fonseca

Em "Crítica da Vítima", Daniele Giglioli propõe interrogar a mitologia da máquina vitimária. O livro dá continuidade ao projeto iniciado em "Senza Trauma" (2011), mas agora tematiza a hipertrofia da condição de vítima e sua conversão em ideologia sedutora.

Propõe um "experimento com a ética", no qual busca expor as engrenagens da heroicização da vítima hoje. Interessa-lhe o ardil com que a passividade passa a valer como instrumento de reconhecimento, prestígio e, em última instância, poder.

De início, afirma que sua crítica não mira as vítimas reais, mas as formas de apropriação indevidas do imaginário vitimatório: usurpação do lugar, discurso e posição de vítima.

Detem-se sobre a "prosopopeia da vítima", o reforço da dimensão dolorosa e a valorização da impotência como posição ética inquestionável. Preocupa-o, portanto, a economia da usurpação do real da vítima por posições fantasiosas que dela se beneficiam.

Professor e historiador italiano Daniele Giglioli, autor de ‘Crítica da Vítima’ -  Patricia Stavis/Folhapress

Seu foco, no entanto, é nossa incapacidade cognitiva de distinguir a vítima verdadeira da falsa. Ao investir na criação de condições teórico-críticas para realizar essa distinção, Giglioli apela a uma consciência do real capaz de tornar visível a diferença; entretanto, os termos "consciência "e "real" não são explorados o suficiente ao longo do livro para garantir tal distinção.

A formulação —deliberadamente escandalosa— que dispara sua reflexão, "a vítima é o herói do nosso tempo", mereceria minúcia e paciência teóricas que fossem além do uso da própria teoria como sintoma ou reflexo cultural.

Sua leitura aposta na existência de uma separação implacável entre a vítima e os que se imaginam vítimas e convoca uma consciência do real que ajudaria a ver a diferença entre o real e a fantasia da vitimização.

Por outro lado, não reconhece como dimensão do problema o fato de que os herdeiros ou porta-vozes das vítimas muitas vezes são os únicos capazes de exigir justiça, já que a voz da "verdadeira vítima" inexiste ou foi deslegitimada de tal modo que o próprio sistema jurídico é incapaz de considerá-la válida.

Desfere críticas a autores de diversas procedências e linhagens teóricas numa rapidez assertiva que fragiliza algumas análises.

Isso se torna uma armadilha quando Giglioli põe sob a mira textos de Judith Butler e Gayatri Spivak, por exemplo, sobre os quais se debruça com antipatia manifesta. Quando as situa no lugar discursivo que ajudaria a incrementar a máquina vitimatória, esquece que essas autoras tratam de vítimas reais.

Apesar do tom excessivamente polemista, "Crítica da Vítima" não deixa de ser uma proposta importante e circunscreve temas e paradoxos indigestos com que temos de lidar.

Laura Erber
Professora do departamento de teoria do teatro da Unirio e escritora
 

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