Descrição de chapéu

Beleza de colírio não evita que Shawn Mendes se refestele na sofrência

Cantor canadense não brilha em álbum que se arrasta como martírio repetitivo do começo ao fim

O cantor canadense Shawn Mendes se apresenta em Los Angeles - Mario Anzuoni/Reuters
Silas Martí
Nova York

Shawn Mendes

  • Preço R$ 33,90
  • Autor Shawn Mendes
  • Gravadora Universal

Shawn Mendes é lindo. Seu sorriso é de comercial de pasta de dente, o cabelo de anúncio de xampu e seus músculos saíram das páginas dos colírios da Capricho.

Fica difícil entender então por que ele geme e sofre tanto por amores não correspondidos, improváveis ou impossíveis nas letras de seu último disco, que ele decidiu batizar com nada além de seu nome.

Essa simplicidade, aliás, parece se manifestar como estratégia em cada canção, que começa com ar de confissão, um desabafo sofrido, e depois vai crescendo em efeitos e arranjos para escorar seus falsetes.

Num evento para jornalistas em Nova York, muitos ali mais interessados só em estar na presença do rapaz do que em ouvir música, ele ficou sentado como um bibelô enquanto o disco tocava no rádio, abusando um de sua aura de protótipo de bom garoto.

Mendes é um bom cantor, mas não brilha nesse álbum, que se arrasta como martírio repetitivo do começo ao fim.

Ele está triste, entendemos. Tão triste que deixa a melancolia afogar suas músicas, lembrando às vezes uma Adele que reencarnou no corpo de um menino adolescente no auge da insegurança doída.

“In My Blood”, a faixa que abre esse disco, imprime mais nuances a essa sofrência toda e se destaca um pouquinho do resto do conjunto, assim como “Mutual”, talvez a melhor canção na leva de ruminações às vezes bastante masturbatórias sobre morrer por amor.

Numa comparação com “Illuminate”, seu disco anterior que trouxe hits como “There’s Nothing Holdin’ Me Back” e “Treat You Better”, Shawn Mendes parece ter perdido um pouco da força e da versatilidade em “Shawn Mendes”.

No auge da pouca ousadia do último álbum, estão as pausas vocais que faz em “Particular Taste” e “Queen”, mas que, ouvidas de uma vez só, acabam ficando bem cansativas.

O clima de comédia romântica indie que ele impõe ao conjunto das músicas acaba deixando tudo com cara de atmosfera genérica, sem sobressaltos, sem dramas mais intensos e sem grandes amores.

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