Documentário 'O Muro' examina divisão política durante impeachment

Filme expõe retratos de personagens e registra opiniões sobre o processo político

Marcos Augusto Gonçalves
São Paulo

"Não queria fazer um filme contra o impeachment, queria entender o que estava acontecendo no Brasil", afirma Lula Buarque sobre "O Muro", documentário que percorre as manifestações antagônicas em torno do impeachment da presidente Dilma Rousseff, discute o significado das divisões que marcaram a sociedade brasileira nos últimos anos e estabelece analogias com situações internacionais, como as de Israel e dos EUA na era Trump.

O filme parte de uma circunstância simbólica, a construção de um muro metálico em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, diante do Congresso Nacional, para separar apoiadores e adversários do afastamento na votação do impeachment, em 2016.

"Aquele lugar que foi concebido para ser um espaço de comunhão dos brasileiros, numa cidade que surgiu como uma utopia nacional, se transformou num retrato de uma sociedade dividida", diz.

O cineasta procurou fugir das convenções banalizadas no universo do documentário tradicional —entrevistados não aparecem sentados diante das câmeras com a identificação de praxe na tela, não há uma imposição linear da narrativa e as imagens ganham autonomia em planos que remetem ao cinema autoral, à fotografia e à videoarte.

Uma trilha musical marcante e incômoda auxilia na reconstituição da atmosfera tensa que envolveu o país.

"Trabalhei em projetos de filmes e videoarte com artistas como Adriana Varejão, Tunga e Janaína Tschape e levei essa experiência para o filme. É uma opção de um trabalho pessoal, não estou preocupado com resultado no sentido comercial; estou pensando num tipo de cinema, que já foi chamado de cinema de arte, que hoje está virando, para fazer um paralelo com o que aconteceu na música, uma espécie de vinil."

Lula, 55, já esteve mais próximo do universo do qual procura hoje se descolar. Foi o primeiro empresário de Marisa Monte, na década de 1980 e, em 1991, fundou, no Rio, a Conspiração Filmes, ao lado de Arthur Fontes, Claudio Torres e José Henrique Fonseca.

A produtora atraiu jovens diretores e tornou-se referência na realização de filmes, programas de TV e publicidade.

Em 2016, ano do impeachment, deixou a produtora para dedicar-se a projetos pessoais. "A Conspiração tinha uma forte preocupação com a qualidade técnica dos produtos, que fazia a diferença. Mas hoje, com os avanços tecnológicos, aquele padrão se tornou mais acessível e virou regra."

Com roteiro da jornalista Isabel de Luca, o documentário expõe retratos, não raro bizarros, de personagens presentes nas manifestações, registra opiniões dos dois lados e entrevista intelectuais, cientistas políticos, historiadores, filósofos e brasilianistas sobre o processo político que se instala no país a partir de junho de 2013. "Foi em junho que tudo começou, ali a direita foi para a rua e a esquerda sentiu-se perdida", diz Lula.

O filme é uma produção da Espiral (do diretor e de sua mulher, Letícia Monte) e do canal Curta!, com apoio do Fundo Setorial do Audiovisual.

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