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Editora recebe reclamações e xingamentos por publicar 'Comunismo para Crianças'

Livro da alemã Bini Adamczak, que usa linguagem simples, mas não é para o público infantil, será lançado no Brasil em julho

MLB
São Paulo

Após o anúncio de que publicaria no Brasil uma edição de “Comunismo para Crianças”, a Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha, vem recebendo uma série de reclamações e xingamentos.

O livro da alemã Bini Adamczak, lançado no país da autora em 2004, explica o comunismo por meio de uma linguagem simplificada, distante do tom acadêmico, mas não é exatamente voltado a crianças —o título é uma brincadeira.

O texto vem com ilustrações de pequenas revolucionárias em seu despertar político.

Uma edição americana causou rebuliço quando saiu nos EUA, no ano passado. Corria o boato de que o livro ensinava crianças a gerenciar gulags, os campos de trabalho forçado da União Soviética, imitar ditadores e destruir o Ocidente.

Aqui, a Três Estrelas recebeu uma dezena de mensagens de repúdio e xingamentos na sexta (23), por email e redes sociais, além de duas ligações, uma à editora e outra à sua assessora de imprensa.

Na mesma data, o site Terça Livre publicara um vídeo em seu canal no YouTube no qual falava do livro, usando fotos de massacres soviéticos. Ao final, dava os contatos da editora e de sua assessoria.

O lançamento já havia sido anunciado no dia 16 de junho pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, e também pelo site da Três Estrelas.

Escritora alemã Bini Adamczak - Reprodução

As queixas à editora insistem que o livro é um instrumento de doutrinação para crianças e repudia sua edição.

Uma diz: “Que coisa mais horrível!!!!! Deixem as crianças em paz!!!!!! [...] O comunismo mata e escraviza !!!!!! Pensem no futuro dos seus filhos amanhã!!!! Desistam.”

Outra pergunta “quando sai o ‘Mein Kampf’ [livro de memórias de Hitler] para crianças, seus nojentos?”. Algumas falam em boicote à publicação ou em “entrar com um processo para barrar o lançamento”.

Segundo Rita Mattar, editora da Três Estrelas, muitas se assemelham e repetem expressões como “cujo regime matou milhões de pessoas” para descrever o comunismo.

A Folha entrou em contato com o aposentado José Mauro Azevedo dos Santos, 53, morador do Rio, uma das pessoas a enviarem reclamações à editora. Segundo ele, trata-se de um livro de doutrinação.

“Como se não bastasse o próprio socialismo, retratado no comunismo, ser uma ideologia genocida, fazer com que isso pareça um conto infantil, passar essa ideologia macabra para criança, isso é um pouco perverso demais.”

Questionado sobre o público-alvo de “Comunismo para Crianças” (adulto), ele diz: “A partir do momento em que você usa linguagem infantil, passa a ser um livro de criança”.

Ele afirma ter cruzado informações em diversas fontes na internet para se informar sobre o livro, apesar de não o ter lido. Ainda conta que pesquisa muito sobre política e fala sobre o assunto num canal do YouTube —não revela qual.

“Toda a crítica ou boicote que eu puder fazer, a essa publicação, a outras, à editora, eu farei”, diz ele —que, no entanto, manifesta interesse em ler o livro, “porque toda a informação, para quem é apto a analisá-las, é boa”.

A edição da Três Estrelas sai no início de julho, com tradução de Christine Röhrig.

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