Filmado a jato, drama 'Canastra Suja' enfoca família desajustada

Caio Sóh levou cinco meses para tocar longa sobre pai alcoólatra que oprime os parentes

Guilherme Genestreti
São Paulo

Apenas cinco meses separaram o lampejo inicial e o primeiro corte de “Canastra Suja”, drama sobre uma família brasileira suburbana que estreia nesta quinta (21).

A rapidez com que o longa foi tocado se traduz numa visceralidade que —com todo o risco de soar como uma afirmação colonizada— aproxima o trabalho do diretor Caio Sóh das obras do americano John Cassavetes, o papa do faça-você-mesmo no cinema.

O projeto, diz o paulista radicado no Rio, nasceu já com o pressuposto de que não haveria patrocínio. Recursos externos só vieram do Canal Brasil e outros para finalizar a obra. Os atores não receberam cachê, mas promessas de participação na bilheteria. 

Bianca Bin, Adriana Esteves e Marco Ricca, Bianca Bin em cena de 'Canastra Suja'
Bianca Bin, Adriana Esteves e Marco Ricca, Bianca Bin em cena de 'Canastra Suja' - Divulgação

“É um movimento que rola. Era ou isso ou não saía”, diz Sóh. Em três meses ele lapidou roteiro, e filmou em três semanas em locações próximas, nos arredores da Barra. 

As filmagens comportavam mudanças de última hora. Ele dá exemplos: “No meio, comecei a achar o tom meio ‘bad’. Pensei numa cena de karaokê. Filmamos logo depois.” 

O tom “bad” se deve aos desajustes do grupo que ele põe em cena. Batista (Marco Ricca) é o arrimo dessa família de classe média baixa. Seu problema salta nas primeiras cenas: “Eu bebo e fico um pouco agressivo”, diz, no encontro do Alcoólicos Anônimos. 

Os desajustes se repetem entre os demais membros da casa, passando pela esposa infeliz (Adriana Esteves) e o primogênito que cogita fazer qualquer coisa por uns trocados (Pedro Nercessian).

A trama se ancora em suposições e na subsequente quebra de expectativas quanto ao rumo dos personagens. “Queria trabalhar com o prejulgamento do público”, diz Sóh.

A produção é o quarto longa do diretor de 39 anos, egresso do circo e do teatro, que se alterna entre obras de toada lúdica e fabular (“Por Trás do Céu”, “Minutos Atrás”) e outras eminentemente naturalistas, como é o caso de “Teus Olhos Meus” e “Canastra Suja”.

“O realismo é a linguagem do meu contato direto com o cinema. Nos outros casos, os roteiros partiram de textos que eu já tinha encenado.”

Sóh agora se prepara para encampar mais três projetos, uns mais “a jato” do que outros. No segundo semestre, ele roda “Otela” (com o A anarquista), adaptação da peça shakespeariana, mas só com mulheres. Também quer tocar “O Diabo Quer se Casar”, fábula política sobre o demônio.

No momento, ele edita “Hashtag”, todo rodado com câmeras de celular e que pretende projetar em cinco telas. Um dos atores, diz, descobriu um câncer enquanto se filmava, outro se registrou trancado no quarto, pós-término de namoro. “Sei lá se isso poderá ser chamado de cinema.”

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