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Jennifer Egan mescla aventura marítima e noir em novo livro

Vencedora do Pulitzer em 2011 lança no Brasil 'Praia de Manhattan', que investiga gêneros literários

Maurício Meireles
São Paulo

Quem lembra de “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca), ganhador do Pulitzer em 2011, vai encontrar Jennifer Egan bastante mudada.

Daquela vez, a autora apresentou um romance pós-moderno, narrado sob diferentes pontos de vista e com um capítulo na forma de uma apresentação de Power Point.

Oito anos depois, em “Praia de Manhattan”, seu novo romance, Egan aposta em uma narrativa mais tradicional —que, mesmo assim, demonstra uma autora atenta ao fato de que contar uma história não é só contar uma história mas travar um diálogo com uma tradição.

Esse diálogo, aqui, é o encontro que ela promove entre dois gêneros literários: o romance de aventura marítima (“Moby Dick” dá a epígrafe do livro) e o romance policial.

“Parecem muito diferentes, já que o gênero policial é urbano. Mas vi que as histórias marítimas são quase iguais —com a diferença que, se no noir a ameaça existencial vem da paisagem humana, nas aventuras no mar ela vem da natureza”, diz a autora.

“Praia de Manhattan”, uma história à beira-mar, se passa nos anos 1940, enquanto a Segunda Guerra se desenrola.

A escritora Jennifer Egan
A escritora Jennifer Egan - Pieter M. Van Hattem/Divulgação

No livro, Anna Kerrigan trabalha no Arsenal da Marinha, onde se tornará uma das primeiras mulheres mergulhadoras, quando elas ganham permissão para o posto.

Também acompanhamos a história de Dexter Styles, uma figura do submundo, e Eddie, o pai de Anna, que desaparece misteriosamente. Além da guerra, há o pano de fundo do crime organizado que começava a se desenvolver em Nova York no período.

Embora seja possível ler o romance sob a chave do feminismo e o lugar das mulheres na sociedade, Egan começou a escrever antes de o assunto ganhar repercussão em movimentos como o #metoo.

Ela lembra, por exemplo, que em suas pesquisas descobriu que mulheres não eram permitidas em navios até 1943 —havia a crença de que, confinados com elas, os homens não saberiam se controlar.

“Isso parecia tão antigo. Mas, logo depois que o livro saiu, surgiram as histórias do que Harvey Weinstein fazia com as mulheres com quem trabalhava. Vi que os anos 1940 não estavam tão distantes quanto pensei”, afirma.

Dessa forma, ela vê seu livro ainda como uma reflexão sobre o poder feminino e a dificuldade de expressá-lo sem sofrer consequências.

É um livro de uma autora que pensa também sobre o poder global americano e seu suposto declínio, um dilema para muitos escritores do país.

“Na Era Trump, somos alvo de piada no mundo todo. Muitos artistas americanos se beneficiaram desse poder global. Acho que agora muitos se sentem preocupados com o que realmente significamos.”

Pode não ser óbvio, mas “Praia de Manhattan” também foi gerado pelo 11 de Setembro —ao ver a fumaça que subia das Torres Gêmeas tom, Egan imaginava Nova York na Segunda Guerra Mundial.

“Os atentados me fizeram pensar. Durante a Segunda Guerra, havia o medo de que houvesse aqui uma blietzkrieg como a que houve em Londres. Foi dali que veio minha vontade de escrever sobre a cidade naquele período”, diz.

Então, começou uma ampla pesquisa histórica com sobreviventes do período, jornais da época e em bibliotecas —por isso demorou tanto tempo para publicar de novo desde que venceu o Pulitzer.

Egan, que foi na juventude uma nerd da teoria literária, diz que, ao escrever hoje, tenta usar um lado menos analítico e mais inconsciente do cérebro.

“Minha mente consciente não tem boas ideias. É último como ferramenta analítica, mas não como ferramenta criativa”, afirma.


Praia de Manhattan
Jennifer Egan. Ed. Intrínseca. Trad.: Sérgio Flaksman. R$ 49,90 (448 págs.)

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