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Livro de Scruton deve ser visto como panfleto polemista movido por diferenças políticas

Com a obra, a Record dá sequência ao esforço editorial de publicar os autores da direita intelectual

Pablo Ortellado
São Paulo

Tolos, Fraudes e Militant - Pensadores da Nova Esquerda

  • Preço R$ 54,90 (406 págs.)
  • Autor Roger Scruton
  • Editora Ed. Record

Com "Tolos, Fraudes e Militantes", de Roger Scruton, a Record dá sequência ao esforço editorial de publicar os autores da direita intelectual.

O livro é uma atualização de outro, "Pensadores da Nova Esquerda" (1985), que buscava, por meio de uma crítica generalizante, polemizar com autores daquela corrente.

Na nova versão, publicada na Inglaterra em 2015, saem autores como R.D. Laing e Rudolf Bahro, que perderam centralidade no debate, e entram outros, hoje mais proeminentes, como Foucault, Deleuze, Badiou e Zizek.

O livro não deve ser visto como uma crítica séria do legado intelectual dos pensadores de esquerda, mas como uma espécie de panfleto polemista movido por diferenças políticas e por muito ressentimento do status outorgado pelo establishment cultural e acadêmico à produção intelectual progressista.

Para um leitor que conheça a obra de alguns dos autores analisados, a leitura do livro de Scruton provoca irritação e espanto, já que é repleto de generalizações grosseiras e erros conceituais básicos.

O escritor Roger Scruton - Andy Hall/Getty Images

Por um lado, não seria correto esperar que um livro tão abrangente, que busca analisar a obra de Hobsbawn, Thompson, Galbraith, Dworkin, Sartre, Foucault, Lukács, Adorno, Habermas, Althusser, Lacan, Deleuze e Guattari, Gramsci, Raymond Williams, Perry Anderson, Richard Rorty, Edward Said, Alain Badiou e Zizek em 400 páginas, pudesse, de algum modo, fazer justiça a todos os autores.

Mas seria de esperar que Scruton pudesse compreender as questões centrais e conceitos fundamentais de ao menos alguns desses pensadores, ainda que apenas nas obras mais conhecidas, e que pudesse apresentá-las de maneira breve e correta, antes de se aventurar em uma crítica generalizante. Se o leitor espera aprender algo sobre qualquer desses autores, ainda que para criticá-los, deve procurar auxílio em outro lado.

O esforço de Scruton é reduzir toda essa produção intelectual, multifacetada e politicamente diversa, a um mesmo projeto político anticapitalista e autoritário. O que todos esses autores buscariam é, por meio de uma crítica à ideologia, promover um Estado ditatorial que esmague as instituições da sociedade civil e substituir a competição e as assimetrias naturais do livre mercado por uma totalitária ideia de justiça social.

O leitor informado custa a crer que ele realmente tenha lido esses autores, já que ignora o conceito de esfera pública e o papel da sociedade civil na obra de Habermas, deixa de lado o papel central da autodeterminação no processo histórico de constituição da classe na obra mais conhecida de E. P. Thompson e afirma que a obra de Foucault é uma "tentativa de conseguir ordem social sem dominação".

Os erros de compreensão são tantos e tão grosseiros que é difícil escolher os mais gritantes.

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