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Longa detetivesco sobre João Gilberto é destaque do Festival In-Edit Brasil

Mostra de documentários musicais começa nesta quinta (7) em São Paulo; veja seleção

Guilherme Genestreti
São Paulo

Dois fantasmas rondam o documentário "Onde Está Você, João Gilberto?". O recluso pai da bossa nova, é claro, espraia seu vulto por todo o filme. Mas há também um outro, o do jornalista alemão Marc Fischer, que em 2011 empreendeu uma busca infrutífera pelo músico (o autor se mataria meses depois, pouco antes do lançamento de "Ho-Ba-La-Lá", ensaio bem-humorado em que relata seus percalços).

A partir desses dois espectros, o diretor franco-suíço Georges Gachot tece um longa que é embebido em saudade, o mais bossa-novista dos sentimentos. O filme é o grande destaque do Festival In-Edit Brasil, que começa nesta quinta (7).

Ao refazer a rota de Fischer, Gachot topa com Miúcha, João Donato, Marcos Valle e Roberto Menescal, viaja até Diamantina atrás do mítico banheirinho em que a batida do violão foi criada e, sobretudo, tenta conversar com João Gilberto (entregar se ele é bem-sucedido, contudo, seria tirar parte da graça).

"Não queria concorrer com Marc", diz o diretor à Folha. "Meu objetivo não era provar que eu conseguiria falar com João, o que ele não conseguiu. Como ele morreu, o que eu queria era fazer João tocar a música 'Hô-ba-la-lá' por Marc."

O compositor está em toda parte —em discos no sebo, na televisão, na memória dos ex-parceiros—, mas ele não está disposto a dar as caras. As tardes molengas em que Gachot vaga pelo calçadão de Ipanema quase que imploram por uma trilha sonora joão-gilbertiana.

O clima que se impõe no filme é detetivesco, quase um policial com indagações existenciais. O diretor se coloca em cena, vivendo situações kafkianas no Rio e tendo como escudeira a mesma assistente que ajudou o alemão, Rachel, a sua fiel "Watson".

À certa altura, Miúcha atente a uma ligação; é João do outro lado da linha, mas ela não passa o telefone ao diretor. Donato rememora uma amizade que era íntima como "corda e caçamba", mas que há 15 anos não se nutre. Menescal alerta: "Cuidado, há algo de sombrio nele".

 

O diretor tem suas hipóteses para o isolamento de João Gilberto. "Ele inventou essa forma de música, cheio de saudade, e teve oferecer a própria vida completamente a essa ideia", diz o cineasta. "Ele é arquétipo e vítima do que inventou, a bossa nova."

Fischer e Gachot nunca se conheceram pessoalmente, mas circularam pelos mesmos meios. Enquanto nas páginas do primeiro os músicos brasileiros são pintados de forma irônica, para o segundo são matéria-prima de toda uma obra --o diretor, que mora na Suíça, já fez filmes sobre Maria Bethânia ("Música É Perfume"), Martinho da Vila ("O Samba") e Nana Caymmi ("Rio Sonata").

O interesse pelo Brasil começou com um show de Bethânia em Montreux, nos anos 1990. "Ela abriu a porta para a MPB", diz, em português. "Não entendi o que tinha sido aquilo, mas era como se fosse algo próximo, como se eu tivesse conhecido meus pais verdadeiros."

Os três filmes do cineasta sobre músicos brasileiros serão exibidos ao longo do festival. Ele também dará uma "master class", uma aula sobre o ofício, no sábado (9).

10º In-Edit Brasil

  • Quando De 7 a 17 de junho
  • Onde CineSesc, Spcines, Matilha e outras salas
  • Preço grátis à exceção do CineSesc (R$ 12)
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