Descrição de chapéu Crítica

Ótimo, livro 'Kyra Kyralina' apresenta leitor à malandragem romena

Ética da antiética na periferia europeia é objeto de autor que saiu de casa aos 12 anos

Cena do filme 'Kyra Kyralina' (2014), adaptação para o cinema do livro de Panaït Istrati pelo também romeno Dan Pita
Cena do filme 'Kyra Kyralina' (2014), adaptação para o cinema do livro de Panaït Istrati pelo também romeno Dan Pita - Divulgação
Noemi Jaffe

Kyra Kyralina

  • Preço R$ 74,90 (184 págs.)
  • Autor Panaït Istrati. Trad.: Erika Nogueira
  • Editora Carambaia

Todos os países devem ter uma figura correspondente ao nosso malandro e sabe-se de muitos personagens semelhantes a ele, espalhados pela literatura mundial: o pícaro, o sátiro, o trickster.

Entretanto, é nos países deslocados dos centros econômicos, agora e historicamente, que este arquétipo se desenvolveu mais e melhor.

Se conhecemos várias histórias de malandros no Brasil ("Dialética da Malandragem", ensaio de Antonio Candido, é o texto mais completo sobre esse assunto), como Pedro Malasartes, Macunaíma e Leonardinho, não podemos imaginar como seria um malandro romeno.

Mas não é à toa que é de lá que nos chega "Kyra Kyralina", um romance de Panaït Istrati, autor romeno do início do século 20, descoberto e difundido por ninguém menos que Romain Rolland.

Não à toa, porque a Romênia se localiza na periferia da Europa, embora sua vida cultural seja, como a de tantos países do Leste Europeu, riquíssima e bem diferente do que se passa nos países centrais.

Istrati, segundo conta Rolland, era filho de um contrabandista e de uma camponesa e partiu de casa aos 12 anos, atraído por uma vida de vagabundagem e aventuras, "sem pouso e enxotado por vigias noturnos, faminto, doente, dominado por paixões e sangado pela miséria".

Percorreu o Oriente, envolveu-se com revolucionários e se tornou um "contador de histórias nato", chegando a interromper uma carta de suicídio duas vezes para narrar algumas piadas.

O romance é, em grande medida, a narração das aventuras e, principalmente, as desventuras de Stavro, protagonista malandro e, estranhamente, também um filósofo existencialista.

Não teórico, mas prático. Lemos suas histórias, sobre os vários personagens que compuseram sua desdita, como se o estivéssemos ouvindo, enfronhados em uma vertigem que lembra as "Mil e Uma Noites", nas histórias que despertam outras histórias, como num jogo de espelhos infinito.

Stavro conta dos "vigaristas honestos" de antigamente --os legítimos-- e como hoje eles não existem mais ("mas o malandro pra valer, não espalha, aposentou a navalha"...).

Como Adrien, que ouve a narração de Stavro, o leitor também escuta "sem nada entender, mas tudo sentindo".

É o imoral que, aos poucos, vai dando lições de moral aos supostos "homens de bem", assim como a nós, que vamos entendendo que seu sofrimento não somente justifica como até o impulsiona à vida de pequenas e inofensivas desonestidades: "De tanto passear com a chama por debaixo do nariz, eu acabaria por deixar de temê-la. Quem sabe? O que conhecemos da natureza humana?"

Pela "necessidade de estar sempre a olhar o abismo da alma humana", vamos conhecendo Kyra Kyralina, Dragomir e Stavro e uma ética da antiética, através de histórias ondulantes, em que o leitor é o surfista e a prancha, o narrador.

Noemi Jaffe 

Escritora e crítica literária

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