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Peça 'Colônia' revela aparato da barbárie com boa atuação de Renato Livera

Monólogo traz figura de professor para discorrer sobre o descaso na sociedade brasileira

Paulo Bio Toledo
São Paulo

Colônia

  • Quando Seg. e ter., às 20h. Até 12/6
  • Onde Sesc Consolação - espaço Beta, r. Dr. Vila Nova, 245
  • Preço R$ 6 a R$ 20
  • Classificação 14 anos

Em um grande quadro negro, o professor interpretado por Renato Livera escreve a palavra "Colônia". O espetáculo, escrito por Gustavo Colombini e dirigido por Vinícius Arneiro, acontece numa sala de aula construída por uma cenografia simples.

A palavra escrita com destaque, além de título da peça, será a pedra angular de uma conferência cujas reflexões derivam dos múltiplos significados que o termo possui.

A opção por fazer da cena teatral uma sala de aula não é casual, mas o fundamento do monólogo. Empilhando palavras, traços e conceitos, o professor vai compondo sobre a lousa uma radiografia de sua razão incomum. Organizado desse modo, o espetáculo torna evidente não apenas as linhas constitutivas da personagem, como também o mecanismo de seu pensamento.

Já no início vê-se que não é um professor típico falando de um tema que domina.

Antes da conferência, quando ele prepara sobre a mesa seus objetos de trabalho (giz, água, anotações), sua figura se revela envolta em manias, tiques e melancolia. Ele conduz a aula com momentos de arroubos febris, desamparo emocional e traços de desajuste social. Seu raciocínio é avesso à expectativa de explanação lógica da sala de aula.

O que não anula o fascínio de uma lógica própria e nem por isso menos avançada. As suas formulações conectam o termo "colônia" com o histórico colonial do Brasil. Nosso passado violento aparece como um tipo de relação social permanente. Uma marca que não se pode apagar.

É nesse sentido que surge, ainda que um pouco cifrada, a referência ao hospital Colônia, centro de internação psiquiátrica que funcionou em Barbacena (MG) até a década de 1980 e acumulou cerca de 60 mil mortos entre diagnosticados e todo o tipo de indesejados sociais despejados ali.

A referência parece ser um ponto central do raciocínio e ecoa diretamente no professor. Afinal, o descarte de toda a sorte de indesejados sociais refere-se também a ele.

O fluxo livre e às vezes desconecto de seu raciocínio especulativo, o acúmulo de digressões líricas, suas manias e melancolias seriam pretexto suficiente para excluí-lo da vida social. E a forma como a conferência se desenvolve é também um combate solitário contra a lógica excludente da ideia de colônia.

A atuação de Livera mostra essa luta de resistência sem se eximir de revelar o sofrimento e o desajuste do professor. O ator traz o fascínio da personagem sem idealizar o desvario. E consegue concretizar em si a interessante ambivalência que percorre a peça.

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