Descrição de chapéu Livros Flip

Pesquisadora lança na Flip panorama do erotismo no conto brasileiro

Eliane Robert Moraes reúne textos de 1852 a 1922 —e mostra como autores burlaram a moral usando da alusão na descrição do sexo

MLB
São Paulo

No princípio, era tudo alusão. A produção do conto brasileiro no pré-modernismo, ainda tímida, não deixava de falar de sexo. Mas, naqueles tempos moralistas, valia-se da máscara da metáfora para descrever a lascívia.

Esse espectro do conto nacional erótico foi reunido por Eliane Robert Moraes, crítica literária e professora da USP, em “O Corpo Descoberto”, coletânea de 53 textos escritos entre 1852 e 1922, a ser lançada na Flip no fim de julho

Na festa literária de Paraty, a pesquisadora ainda integra uma mesa sobre Hilda Hilst, homenageada desta edição.

Eliane, que há três anos lançou “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, resultante de quase uma década de pesquisa, não faz de “O Corpo Descoberto” uma nova antologia. 

Estabelece um recorte da produção contista antes do modernismo, já que verificou um marco no movimento: depois dele, o conto prolifera e há uma abertura na sociedade, de liberalização sexual.

“Eu flagrei que esse período anterior [até o início do século 20] tinha uma cara que dizia muito respeito à alusão”, conta a pesquisadora. “Num momento em que era tão difícil falar [de sexo], vemos como autores já faziam mil manobras e conseguiam isso.”

Não que deixassem de passar por aqui produções libidinosas, mas elas chegavam em especial de Portugal e França. No Brasil, o vocabulário ganhou liberdade na virada do século, com a expansão da imprensa e do mercado livreiro.

Alguns se escondiam sob pseudônimos, como Olavo Bilac, que assinava Bob —uma brincadeira com suas iniciais—, e Coelho Neto como Caliban. Este, emprestando o nome do personagem shakespeariano de “A Tempestade”, cria outra persona.

“É um expediente que diz respeito à censura, à proibição, mas que tem um rendimento literário”, explica a organizadora. “É um permitir-se com outra mão, uma coisa bonita da clandestinidade.”

Entre mulheres, então, crescia a dificuldade. Para conseguir falar de sexo, muitas autoras se valiam do álibi do amor, afirma Eliane. Tanto que Júlia Lopes de Almeida é a única dos 22 escritores da coletânea. 

Mas o protagonismo, ironicamente, fica a cargo de figuras femininas na maioria das histórias. “A mulher autora é ausente, mas ela é sem dúvida a personagem onipresente dos contos. Há essa dificuldade da moral em reconhecer o corpo masculino. O corpo descoberto é o feminino.”

A pesquisadora divide sua coletânea não de forma cronológica ou por escolas literárias, que poderiam “aprisionar um pouco o nosso olhar”, mas por temas, como a viuvez, os objetos de desejo, as virgens profanadas, os feitiços. E o desejo entre homens, que surge sutil, nas entrelinhas.

“Fiz [a divisão] motivada pelo fato de que um conto explica o outro. A erótica é sempre uma questão transversal.”

Alguns contos da seleção poderiam ser lidos não sob o viés erótico, mas ganham outro olhar quando reunidos ali. Caso de textos bem conhecidos, como os machadianos “A Causa Secreta” e “Missa do Galo”.

“Tinha tesourinhos dispersos em outras catalogações. Quando eu coloco dentro dessa série, eu abro para essa possibilidade de pensar o erotismo naquele conto.” E ele sempre vem de forma aludida.

Enquanto a poesia se calca em metáforas florais, vegetais, o conto faz muito uso de objetos e animais para falar de sexo. Seja um leque que se abre e fecha ou uma cadeira onde se senta, aquilo que tocou ou o que escondeu. Anima-se o objeto, diz Eliane, na dificuldade de ver o corpo em ação.

Em “O Sonho”, Bob/Bilac coloca um rapaz a narrar uma noite em que se vê transfigurado num porco assado, ao centro de um banquete. Percebe tratar-se do casamento de sua amada com um sujeito asqueroso, e logo deseja emporcalhar o vestido da noiva com sua pele suína tostada.

Depois se delicia com o toque dela: “tirou do meu corpo uma das rodelas de limão que me enfeitavam, e começou a chupá-las devagarinho, com seus divinos lábios vermelhos, úmidos, gulosos de beijos!... Olha! era o meu sangue! era a minha alma! era a minha vida que ela  chupava!”.

Já Coelho Neto, como Caliban, traz um viúvo que faz dos ossos da falecida mulher matéria-prima para objetos seus, dos botões da camisa aos talheres, com os quais come com imensa volúpia.

Por vezes, a metáfora vem mascarada de sadismo, de crueldade. Como o sujeito que João do Rio descreve em “Dentro da Noite”, um rapaz que sente um prazer enorme em alfinetar as carnes alheias. 

“Aproximo-me, tomo posição, enterro sem dó o alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa. Uma já me esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto das magras, as que parecem doentes”, narra o personagem.

Já que não é possível carregar na tinta sexual, carrega-se no lúgubre, no sinistro, comenta a organizadora. “Só que, na medida em que você disparou o toque do sexo, você lê aquilo tudo com sadismo.”

Apesar do recorte, a coletânea se encerra com o modernista Mário de Andrade e seu conto “O Besouro e a Rosa”, sobre uma garota virginal e pudica que se transforma depois de um besouro subir-lhe por dentro da camisola numa noite quente de verão.

Foi o escritor que levou Eliane a sua “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”. Num prefácio feito pelo autor em 1926 para “Macunaíma”, ela percebeu a ausência de uma sistematização do erotismo na produção literária nacional.

“Mário foi fundamental [para a pesquisa], ele adorava o erotismo, tinha um olhar extraordinário para isso. A grande sensibilidade modernista ao erotismo está nele.”

O Corpo Descoberto: Contos Eróticos Brasileiros (1852-1922)

  • Preço R$ 50 (472 págs.)
  • Autor Eliane Robert Moraes (org.)
  • Editora Cepe, selo Suplemento Pernambuco
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