Descrição de chapéu Flip

Cabeleireira de Liz Calder, idealizadora da Flip, queria fazer a cabeça de Bethânia

Dona de um salão em Paraty só assistiu a uma mesa do evento, a da cantora, pelo telão, em 2013

Maria Bethânia participa da edição de 2013 da Flip - Danilo Verpa -5.jul.2013/Folhapress
Patrícia Campos Mello
Paraty

A cinco quarteirões da tenda principal da Flip, a cabeleireira Ivani Regina dos Santos comemorava o salão cheio. O Salão da Ivani quase fechou em junho. O movimento nunca esteve tão fraco e ela atrasou em dois meses o aluguel.

Ivani faz o cabelo da editora britânica Liz Calder, idealizadora da Flip, há 14 anos. Cortava o cabelo dela bem curtinho, desfiado. Agora, Liz está com corte chanel. Passou pelo salão na quarta, para a abertura da Flip, e fez chapinha.

Com a crise, Ivani começou a fazer pipoca gourmet de leite Ninho e de torresmo, pra complementar a renda. Mas não pegou muito.

Agora, aposta na diversificação do salão e anuncia sua nova atividade numa placa: "Temos espaço para banhos". Ivani cobra entre R$ 10 e R$ 15 pela ducha para quem vem de excursão e não quer voltar cheio de areia no ônibus.

Liz Calder sempre chama Ivani para a Flip, arrumou até convite para ver o Chico Buarque. Mas a única vez em que Ivani, 59, assistiu a uma mesa da Flip foi em 2013. Foi ver a Maria Bethânia pelo telão. "Adoraria arrumar o cabelo da Bethânia, mas, como ela gosta daquele jeito, faria só um botox, pra ficar brilhoso", diz.

O salão tem a parede coberta por páginas de revistas com fotos de cabelos, e um diploma emoldurado da federação de cabeleireiros de São Paulo.

Ivani largou a escola no fim do ensino fundamental porque ficou grávida e começou a trabalhar de manicure. Aos 59 anos, tem quatro filhos, dez netos e uma bisneta.

"Sou uma cabeleireira internacional, faço cabelo de gente do mundo todo", ela diz.

Já atendeu a algum escritor famoso? "Uma vez veio uma portuguesa, Lídia alguma coisa, não conhecia, não, mas à noite eu a vi na Globo, dando entrevista", conta, referindo-se à escritora portuguesa Lídia Jorge, que participou da Flip em 2004.

Ela gosta mesmo é dos livros do autor Augusto Cury, que a ajudaram muito quando ela teve câncer no seio, em 2016.

Já Gabriela Espírito Santo dos Santos, que ajuda Ivani no salão, adorou a obra "A Cabana", de William P. Young.

Foi o último livro que ela leu, cinco anos atrás. Ela nunca assistiu a nenhuma mesa da Flip.

Teve vontade de ver o Lázaro Ramos no ano passado, mas estava cheia de trabalho —às terças e quintas faz faxina, e no restante do tempo trabalha com Ivani no salão. Consegue tirar R$ 450 da faxina mais uns R$ 600 com a Ivani.

No ano passado, a situação apertou e Ivani não conseguiu pagar o 13º da Gabriela, então deu uma bicicleta à funcionária. É com ela que Gabriela tem vindo trabalhar de sua casa no bairro Pantanal, onde mora com o marido, Erinaldo, pedreiro e pescador.

Na quinta, enquanto a plateia na tenda da Flip escutava as gravações de Hilda Hilst tentando falar com mortos, a polícia fazia uma operação para prender os chefes do tráfico no bairro da Gabriela. Mas ela não ouviu os ruídos do além, nem viu os traficantes serem presos —estava ocupada no salão, para aproveitar que tinham vindo os turistas.

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