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Convidado da Flip, sonoplasta português diz que o mundo está 'mal remixado'

Vasco Pimentel atua como engenheiro de som no longa em que Hilda Hilst tenta falar com mortos

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

​Assim não dá, você não escuta. Ao menos não como Vasco Pimentel gostaria que você escutasse.

Se bem que, pensando melhor, quem é o louco que vai querer ter uma audição tão cri-cri quanto a dele? Eis sua maldição, resume o diretor de som português que abeira os 150 filmes no currículo, do conterrâneo Manoel de Oliveira ao alemão Wim Wenders.

"O mundo tá mal remixado, tá muito ruidoso, 95% do som é inútil. Não traz informação nem prazer ou desconforto", diz Vasco, que na quinta (26) participa de uma mesa na Flip com a diretora Gabriela Greeb —ele foi o engenheiro de som de "Hilda Hilst Pede Contato", longa dela sobre tentativas da homenageada da festa em se conectar com os mortos.

Vasco se diz "tragicamente consciente de algo que ninguém está prestando atenção", o som ao redor. Maldito seja —de Marília Mendonça, a "rainha da sofrência", Deus o livre, mas já chegamos lá.

Uma vantagem ele tira dessa relação exaustiva com a "inflação de lixo sonoro" que passa batida por uma "pessoa inconsciente", mas que o faz ziguezaguear por ruas mundo afora "como se estivesse me desviando de um chicote" —o ruído dos carros é a chibatada que lhe dói mais; o dos passarinhos, um cafuné na alma.

Vasco Pimentel, sonoplasta português - Raquel Cunha/Folhapress

"Não me deixo tiranizar pelo som. Vocês todos, sim. E sou eu, que pareço maluquinho, o único ser livre de verdade. Rá!", diz e pontua a frase com um daqueles barulhinhos artificiais de pum que crianças adoram fazer com a boca.

Se sua escuta já é peculiar, a fala não fica atrás. Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas que o digam. A Folha acompanhou uma visita do lusitano à dupla: o primeiro, um escritor craque em sambas-enredos, o segundo, um historiador estudioso das religiões afrobrasileiras. Perto dos dois, Vasco mostra a animação de uma criança diante de presentes sob a árvore-de-natal.

"Cada coisa que vocês falam encruzilha com um ponto da minha geografia mental", diz o sonoplasta, encantado quando Simas explica o que é encruzilhada —onde umbandistas deixam oferendas a orixás.

Vasco dispensa a oferenda de Mussa, o anfitrião: a cervejinha que ele e Simas bebem no apartamento no Leblon. Obrigado, essa ele passa, teve um "curtinho episódio de alcoolismo" há 20 anos e hoje ficará só "na água fresquinha".

O que desce redondo, para o sonoplasta, são os sons que os amigos brasileiros tiram em tambores e berimbaus, típicos da capoeira, da umbanda, do candomblé. Histórias como a curupira que baixa numa senhorinha conhecida de Simas, ou o mito do orixá Ogum, que o historiador descreveu em "Pedrinhas Miudinhas: Ensaios sobre Ruas, Aldeias e Terreiros".

"Ele volta, após longa temporada de guerra, ao povoado de Irê. Chega no dia dedicado, segundo a tradição, ao silêncio absoluto. Em virtude desse dia, não foi saudado pela população como esperava. Enfurecido, se considerando desprestigiado, pegou sua espada, massacrou todo o povo e tomou banho com o sangue dos que acabara de matar."

Só depois Ogum ficou sabendo da data silenciosa e, inconsolável, abandonou a espada e sumiu da terra, virando orixá. "Desde então, Ogum respeita o silêncio dos homens e não gosta de gritarias."

Silêncio não é o forte de Vasco. Quer mais histórias. Escuta atento quando Mussa toca berimbau e canta "Dente de Ouro", velha conhecida nas rodas de capoeira e que, reconhece seu executor da vez, é "bem machista". Um dos versos: "Toda mulher ciumenta, se eu fosse a morte eu matava".

"Como vocês sabem isso tudo?", pergunta o visitante. "Porque a gente gosta de samba-enredo", diz Mussa, especialista no cancioneiro que gerou clássicos como "Quilombo dos Palmares" (Acadêmicos do Salgueiro, 1960). Simas lembra que cresceu num terreiro frequentado pela família. "Isso pra ti era mais normal do que Branca de Neve?", quer saber o convidado europeu.

Vasco registra tudo num gravador que leva para todo o lado. Tem uma proposta. E se o trio fizesse "um compêndio sonoro, reflexão não científica, dos terreiros"? Sei lá, de repente ele fica "dormindo num cortiço qualquer por uns dois meses" (não que precise, tem amigos bem localizados na zona sul carioca), passa uma temporada no Rio para "tentar decifrar a língua dos tambores".

"Eu conduzo tudo, como um Virgílio, e vocês me levam para uma viagem pelo encantatório", sugere, evocando o guia de Dante Alighieri na "Divina Comédia". Ficam de conversar melhor sobre a parceria.

Para engordar seu acervo sonoro, o português faz um giro por ex-colônias de seu país natal: Moçambique, Cabo Verde, Goa, Ilha de São Tomé. Chegou a vez do Brasil.

Foi mal, Simas, foi mal, Mussa, por metê-los nessa encrenca. Mas há de se convir, explica enquanto fuma um cigarro, a bituca depositada num dos vasos de planta na varanda do escritor de "Samba de Enredo: História e Arte". "Não foi culpa minha, foi culpa vossa. Vocês chocaram comigo."

Ouviram bem?

 
 

Sons típicos do Brasil, segundo Vasco Pimentel

 bumbum

"Gosto, gosto", sobre "Vai, Malandra", de Anitta

 

ieieieêêê

"Não diz nada, horrível. Uma música muito servil, muita influência do mainstream americano", sobre hit de Marília Mendonça

 

blim blom

"É Beethoven , é linda ["Fûr Elise"]. O povo riu, por que riu? Não entendi", acerca da trilha sonora do caminhão do gás

 

quén-quén / ho ba la lá

"João Gilberto não tem explicação, é praticamente o melhor som do mundo. A primeira pessoa que cantou baixinho. Faz a coisa mais maníaca, mais tarada que existe"

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