Família de Joaquim Nabuco doa acervo pessoal do abolicionista a fundação

Entre os 6.000 itens estão fotos, diários e correspondências com Machado de Assis e dom Pedro 2º

Mateus Araújo
São Paulo

Um acervo raro e até então inacessível de Joaquim Nabuco (1849-1910) está por vir a público, pondo em relevo memórias e relatos da sua vida pessoal e familiar.

Composto por 6.000 peças, a maioria inédita, o material reúne fotos, cartas, inventários, cartões postais e diários. São registros que começaram a ser guardados em 1834 pelo pai dele, o político Tomás Nabuco (1813-1878), e mantidos por mais três gerações.

O documentarista Pedro Nabuco, bisneto do abolicionista, explica que, por se tratarem de "arquivos mais pessoais", os familiares "acharam por bem mantê-los guardados" até hoje.

Nesta quarta (25), no entanto, a família vai doar o material à Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco), no Recife, que desde 1974 possui uma coleção com 15 mil documentos pertencentes ao abolicionista.

Com o reforço, a instituição passa a deter a maior parte do acervo privado de Nabuco. Outros materiais, com ênfase na sua atuação como embaixador, estão no Itamaraty, no Rio.

"[O material] É de interesse público e precisa ter abrigo técnico, confiável e com acesso aberto a pesquisadores. Natural que seja [guardado] no Recife, onde ele nasceu, foi criado e enterrado", diz Pedro.

Segundo a historiadora Rita de Cássia Araújo, do Cehibra (Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira) da Fundaj, esse "é um material inédito para o grande público, inclusive o acadêmico".

Apenas três pesquisadores tiveram acesso, no passado: a filha e escritora Carolina Nabuco, o historiador Luiz Viana Filho, seus biógrafos, e o escritor Evaldo Cabral de Melo, que editou e publicou trechos dos diários.

O tomo pode embasar pesquisas sobre reforma agrária, diplomacia, economia canavieira e a escravidão, a partir de um novo olhar: o das relações pessoais dos Nabuco.

"O fato de haver trocas de documentos entre eles e pessoas próximas, todos da aristocracia ou da burguesia, não restringe o conteúdo desses textos a um grupo ou à elite", pontua Rita de Cássia. "Ao falarem de si ou entre si, falavam dos escravos, cujo trabalho era essencial na vida econômica, social e doméstica."

Para a coordenadora do Cehibra, Betty Lacerda, os arquivos mostram "o homem além da figura intelectual". Ela se refere a anotações nos diários em que Nabuco relata situações corriqueiras, como crises de enxaqueca e o dia em que pegou emprestado o faqueiro da mãe. "O lado humano faz o perfil mais completo do personagem."

Entre as cartas estão conversas com Machado de Assis, Santos Dumont, dom Pedro 2º e Theodore Roosevelt.

Pela primeira vez também vêm a público, por completo, 20 diários de Joaquim Nabuco. Incluindo o de 1888, no qual narra pormenores do dia da Abolição da Escravatura: "No Senado. (...) Povo em delírio no recinto, meu nome muito aclamado".

Até os flertes que teve estão nos seus diários. Um deles é com Fanny Work, jovem americana com olhos "de uma luz de pérola". "Uma menina muito interessante, muito bonita, mas não é a beleza que eu pensava porque falta-lhe a força. (...) Não é um corpo, é uma flor", descreveu, em 24 de janeiro de 1877.

O acervo inédito de Nabuco só deve chegar à Fundaj em outubro, para ser catalogado, restaurado e digitalizado. A previsão dos pesquisadores é disponibilizá-lo para consulta no primeiro semestre de 2019, quando a fundação completa 70 anos.

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