Descrição de chapéu Flip

Filme explora tentativas de Hilda Hilst de falar com os mortos

Base do documentário são gravações da escritora feitas nos anos 1970

Guilherme Genestreti
São Paulo

Ao filmar “Hilda Hilst Pede Contato”, a diretora Gabriela Greeb diz que fez pacto com o Além. “Se aparecesse um fantasma, eu pararia.”

Não que tenha adiantado. Ao rodar na Casa do Sol, chácara em Campinas onde a escritora paulista morava, a cineasta viu coisas estranhas. “Rui, o lustre está se mexendo. Será que a gente filma?”, indagou ao diretor de fotografia, Rui Poças. A resposta dele: “Ninguém vai acreditar”.

O longa, que tem pré-estreia nesta quinta (26), na Flip, se serve desse tipo de matéria —ou antimatéria. A obra se debruça sobre os quatro anos em que Hilda Hilst, morta em 2004, paquerou o ocultismo. 

Na década de 1970, a homenageada desta edição da festa literária de Paraty gravou em fitas tentativas de falar com os mortos. Buscava uma forma de domar a própria angústia da finitude. “Só uma palavra basta”, implorava para a outra dimensão. “É que as pessoas aqui têm muito medo da morte, e preciso tranquilizá-las.”

Ao encontrar uma caixa cheia desses cassetes, no quarto de Hilda, Greeb diz que conseguiu ver o filme inteirinho. 

Para acompanhar as gravações, ela despeja imagens que evocam assombrações—portões envoltos em névoa, cavalos sem cavaleiro—, e encena o que teria sido a vida da autora no sítio, em meio às vozes. 

O trabalho de som executado pelo português Vasco Pimentel (“Tabu”) incrementa o tom extraterreno. O também lusitano Poças cria imagens etéreas. “Eu disse ao Rui que precisava de um fotógrafo capaz de filmar o invisível”, conta a paulistana de 52 anos que já dirigiu uma trilogia de curtas de realismo fantástico.

Ela nem considera esse seu filme um documentário. “Porque não quero falar quem é a Hilda”, explica. “Mas disponibilizar o espaço fílmico para ela se mostrar presente.”

Nele, a realizadora conclama os antigos amigos a rememorarem a escritora, entre sorvidas no vinho e garfadas no espaguete (o único prato que, dizem, ela sabia cozinhar). Lembram da obscena senhora que, depois de ouvir com enfado a rasgação de seda de um entusiasta, propunha: “E aí, vamos foder?”.

Para Greeb, tal qual a fase pornográfica, a vereda mística foi mais um “potlatch” na vida de Hilda. O termo remete à cerimônia dos nativos americanos de dilapidar os próprios bens. “[Com a a gravação das vozes], ela pôs tudo a perder, dispôs a sua idoneidade.”

Numa das últimas gravações, já quase desistindo de conseguir contato, a escritora se queixa às almas. “Eu estou aqui como uma debiloide, e as vozes de vocês, inaudíveis.”

A diretora vê Hilda como um “quadro de Hopper”, o artista americano que costumava pintar gente solitária. “Ela era uma luz no escuro. Não posso nem falar isso que meus olhos já enchem de lágrimas.”

O resultado do longa percorre a mesma senda da escritora, mas na mão inversa. “Agora é ela, morta, quem aparece para os vivos”, diz a diretora.

Terminada a montagem do filme, a autora apareceu para Greeb em um sonho, do outro lado da linha de um telefone vermelho. “Eu dizia: ‘Hilda, a gente tem que desligar.’ Ela respondia: ‘Só se você nadar amanhã na minha piscina.”
 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.