Descrição de chapéu Flip

Livros sobrevivem mais que qualquer outro artefato, diz investigador de manuscritos

Em Paraty, britânico Christopher de Hamel prometeu visitar Biblioteca Nacional no Rio

Guilherme Magalhães
Paraty

Ao contrário de muitos leitores, Christopher de Hamel não está interessado apenas no conteúdo de um livro. Ele deseja mais: saber quando o livro foi feito, como, por quem, em que condições vivia o autor, quanto tempo foi necessário para a produção.

"Os livros sobrevivem mais que qualquer outro artefato", afirmou o britânico bem-humorado, que participou da mesa Encontro com Livros Notáveis, nesta quinta-feira (26) na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Considerado o "Sherlock" dos manuscritos medievais, ele lembrou que "há mais livros hoje da Idade Média que qualquer outro objeto".

"As pessoas guardam, passam de família em família. Há milhares de livros da Idade Média que ainda estão em mãos privadas, os historiadores se esquecem disso", disse ele, que mostrou imagens de diversos manuscritos citados.

Entre outros livros, De Hamel é autor de "Manuscritos Notáveis", editado no Brasil pela Companhia das Letras, no qual analisa 12 manuscritos medievais.

Para ele, manusear um manuscrito é "como conhecer uma pessoa famosa 600 anos depois". Seu interesse pelo nicho nasceu ainda na adolescência, quando morava na Nova Zelândia.

Aos 12 anos, contou, estava em uma biblioteca pública e se descobriu cativado por um Livro de Horas francês —como eram conhecidos os volumes com salmos feitos para o fiel católico orar respeitando as quatro divisões do dia medieval.

Retrato do escritor Christopher de Hamel, que participa da Flip, em Paraty
Retrato do escritor Christopher de Hamel, que participa da Flip, em Paraty - Keiny Andrade/Folhapress

"Eu colecionava selos, o meu mais antigo era do século 19. Mas esse livro era do século 15, eu achei incrível. Eu pedi emprestado e levei para casa no ônibus da escola. Meus pais ficaram atônitos", lembrou o hoje pesquisador da prestigiosa Biblioteca Parker, da Universidade de Cambridge.

Por acaso, em 1985, entrou para o mercado de arte. "Fui trabalhar na Sotheby's, a casa de leilões. Meus colegas na universidade devem ter ficado horrorizados que me rebaixei a isso, mas achei interessante."

Habitué de inúmeras bibliotecas em vários países, não foi sem pesar que De Hamel admitiu nunca ter estado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

"É uma vergonha", confessou. "Mas deixa eu dizer, meu filho vai se casar com uma brasileira neste sábado, então no final de semana vou ter uma nora brasileira e quero voltar muitas vezes ao Brasil, quero visitar a Biblioteca Nacional."

A visita já vale por um manuscrito francês, também parte de um Livro de Horas, trazido pela corte portuguesa quando d. João 6º fugiu das tropas de Napoleão rumo ao Brasil.

"Ele estava aqui no Brasil no início do século 19, em 1810, é provavelmente o primeiro manuscrito ilustrado que atravessou a linha do Equador", revelou De Hamel.

 
O manuscrito traz a ilustração de Virgem Maria, ao lado de sua cama, no início da oração da manhã, ao receber a visita do anjo Gabriel.
 

Se ainda não viu ---e pegou com as próprias mãos, de preferência sem luvas, como ele defende—, De Hamel pode dizer que esteve no lugar exato onde o manuscrito foi comprado pela primeira vez, em 1460, ao lado da Catedral de Notre-Dame, em Paris.

É ali onde ele aparece em uma foto mostrada durante a mesa, em uma visita com pesquisadores. 

Para ilustrar, mostrou uma foto em que indica o local para outros pesquisadores. "É bem no lugar onde eu estou, é um milagre, vocês veem ali uma luz saindo do céu bem onde eu estou?", perguntou, arrancando risos da plateia.

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