Descrição de chapéu Moda

Moda nacional se adapta a rígidos códigos islâmicos

Ávidas por novidades, muçulmanas são aposta de empresários dispostos a ajustar comprimentos e tecidos

A empresária Alexandra Fructuoso no ateliê da Maison Alexandrine, em SP -  Adriano Vizoni/Folhapress
Pedro Diniz
São Paulo

Quão difícil seria criar moda para um país que, dias depois de permitir que mulheres dirijam, abriu na última quarta (27) investigação por uso de "roupa indecente" na rua contra uma jornalista cujos cabelos apareceram em reportagem televisiva? Empresários brasileiros estão pagando para ver.

A Arábia Saudita, de onde a repórter Shireen al-Rifaie fugiu após o episódio do look controverso, é apenas um dos centros do consumo no Oriente Médio que Vincenzo Visciglia e a portuguesa radicada no Brasil, Alexandra Fructuoso querem vestir.

Dispostos a ajustar comprimentos e tecidos que se adequem à rígida cartilha de estilo muçulmana, eles têm atraído os bolsos das elites com admiradoras sauditas e, principalmente, árabes.

O foco dos dois não são as túnicas e véus que escondem os corpos, modelos considerados pelo Ocidente símbolos da opressão contra a mulher criados a partir de uma interpretação conservadora do Alcorão, o livro sagrado do islamismo. O negócio deles é a festa e a reunião familiar, o momento em que as mulheres, muitas vezes só entre elas, podem mostrar sua vaidade.

Há sete anos criando roupas no ateliê próprio em Dubai, onde junto com um sócio mantém a grife Aavva, Visciglia atende de celebridades da TV local a xeicas que podem pagar mais de R$ 100 mil em um vestido forrado de cristais.

O segredo desse arquiteto natural de Tatuí, no interior de São Paulo, é atender ao desejo das mulheres, em sua maioria de baixa estatura, de valorizar curvas e diminuir sobras de pele, características desconsideradas pelas grifes de luxo no processo criativo.

O estilista e arquiteto Vincenzo Visciglia posa com peça de sua marca Aavva  - Patricia Stavis/Folhapress

Um tipo de cetim grosso e luminoso, o "bridal" usado em vestidos de noiva, e neoprene são as bases das peças.

Os materiais suavizam o quadril e o busto das árabes, segundo ele, bem largos e objetos de desejo na cultura muçulmana, escondidos por debaixo dos abayas, as túnicas com véu, e niqabs, que deixam apenas os olhos descobertos.

"Muitas xeicas têm quase um metro de cintura. O neoprene segura e modela, além de esconder as celulites, que nenhuma mulher gosta. As árabes têm noção de simetria e não se envergonham do corpo, então é uma equação complicada", diz o estilista, que encontrou a Folha em uma passagem recente por São Paulo.

Ele diz que as clientes, assim como as brasileiras, estão mais interessadas em roupas exclusivas, feitas só para elas.

Nas provas de roupa, algumas não deixam nem as amigas verem o modelo antes do ajuste final —para evitar cópias. Visciglia cria junto com elas, mas as medidas são tiradas por costureiras. "Há várias mulheres que não permitem que outro homem as toque."

O bom trânsito com a nobreza, a amizade com libanesas —as mulheres que todas por lá querem copiar— e o respeito pela religião são cruciais para os negócios irem além das dezenas de peças vendidas.

Por isso, a empresária Alexandra Fructuoso, dona da Maison Alexandrine, tratou de acionar seus contatos nas embaixadas brasileira e portuguesa na Arábia Saudita para montar um desfile e um jantar para poucos convidados.

Ela levou peças desenvolvidas pelos estilistas abrigados por sua marca, como o português Nuno Velez e o pernambucano Dinho Batista, com uma nova roupagem.

As adaptações, explica, mudam a partir da numeração. Os vestidos sereia, um dos modelos mais queridos pelas árabes, têm decotes preenchidos por brilhos e desenhos para afinar a silhueta. A partir do número 44, por exemplo, propôs capas nas costas para disfarçar quadris largos.

A empresária está há quase dois anos desbravando o mercado árabe com uma equipe de marketing local e planeja parcerias com multimarcas de Dubai, nos Emirados Árabes. Aposta na abertura cultural dos países de maioria muçulmana, mas sabe que há regras e o campo é minado.

"Na Arábia Saudita, vi mulheres enviando fotos da roupa para o marido aprovar. É uma situação nova para mim", conta Fructuoso. Tão nova quanto a de 11 de abril, quando chegou à capital Riad no momento em que o país interceptava um míssil balístico disparado pelo Iêmen. "Prefiro pensar que fui recebida com fogos."

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