Mostra no MIS resgata beleza e amargura de Stanley Kubrick

Programação homenageia os 90 anos do cineasta com dez longas do diretor de 'Laranja Mecânica'

Inácio Araujo
São Paulo

Não era raro Stanley Kubrick (1928-99), durante uma filmagem, repetir incansavelmente o mesmo plano: 40, 50 vezes. No entanto, mesmo atores caprichosos como Jack Nicholson, ou poderosos, como Kirk Douglas, não se queixavam. Sabiam que Kubrick era um perfeccionista e tirava o melhor de cada ator.

Não apenas isso. Ao longo de sua vida de 13 filmes longos de ficção, em 12 deles teve controle completo: da compra de direitos ao roteiro, da escolha dos atores à montagem.

A única exceção estará presente na retrospectiva do MIS, que começa nesta terça (24) e reúne dez dos filmes do diretor americano: é "Spartacus", a superprodução que pegou já com uma semana de filmagem, por indicação de Kirk Douglas, que se desentendera com Anthony Mann, o primeiro diretor do filme.

Kubrick detestou a experiência. Mas estava sem filmar desde "Glória Feita de Sangue" (1957); não aguentava mais ficar à espera das decisões dos estúdios. Pouco depois mudou-se para a Inglaterra, onde via melhores perspectivas de produção e sentia-se a salvo do moralismo americano.

Só longe de Hollywood teria a liberdade para adaptar o ousado "Lolita" de Nabokov, com seu professor se apaixonando por uma adolescente. Já "Dr. Fantástico", nem pensar: o alvo de sua comédia era o belicoso nacionalismo americano (ainda não desgastado pela guerra no Vietnã).

De filme em filme, Kubrick construiu assim uma obra inteiramente pessoal. Na base de seu trabalho está a ideia de espetáculo. Não mais o do cinema clássico, mas um espetáculo que se pensa e se mostra como tal. Que se distancia do espectador pela frieza do tratamento ("2001 - Uma Odisseia no Espaço"), pelo uso da lente angular ("Laranja Mecânica"), pela introdução de técnicas novas (a luz de "Barry Lyndon", em que sequências noturnas foram feitas apenas com luz de velas, graças a uma lente projetada pela Nasa).

A cada vez Kubrick soube-se mostrar surpreendente, quando não desconcertante. Cada um de seus filmes parece ter estilo próprio, e no entanto em seu conjunto representam o pensamento de seu autor.

Em política, Kubrick sempre se posicionou contra o establishment, fosse ele qual fosse. Apreciou a poesia dos fracassados ("O Grande Golpe", de 1956, que estará fora da mostra, assim como "Medo e Desejo", de 1953, e "A Morte Passou por Perto", de 1955).

Opôs-se ao militarismo ("Glória Feita de Sangue", "Dr. Fantástico", "Nascido para Matar") e optou pelo lado dos escravos ("Spartacus").

De todo modo, o pessimismo foi uma marca constante de seu cinema. Que dizer, por exemplo, do Alex de "Laranja Mecânica", cuja perversidade de certo modo expressa o homem "natural", isto é, antes de ser controlado socialmente?

Ou da metamorfese de Barry Lyndon, da inocência mais pura à amargura mais fúnebre (como o descreveu Martin Scorsese)? Ou ainda do exército como engrenagem de transformação de jovens em máquinas de matar, como em "Nascido para Matar"?

Para não ir longe, basta ficar com a magnífica elipse de "2001", uma das mais belas do cinema. Ali, um macaco atira um osso para o alto, e o osso se transforma numa nave espacial. Num resumo cortante da trajetória humana, ele nos lembra que, do osso à nave, o que mais soubemos fabricar foram instrumentos de ataque e destruição.

Otimista, não é. Mas esse visionário soube produzir beleza mesmo na amargura.

Kubrick 90 Anos

MIS - Museu da Imagem e do Som, av. Europa, 158. De ter. (24) a dom. (29). Ingr.: R$ 12 (por sessão). Programação em mis-sp.org.br

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.