Descrição de chapéu Flip

Para Djamila Ribeiro, negros podem usar expressão capitão do mato

Os brancos não deve só ficar apontando o dedo para negros que reproduzem a opressão, disse escritora à Folha

Anna Virginia Balloussier Patrícia Campos Mello
Paraty

 “Capitão do mato”, a expressão dirigida por Ciro Gomes (PDT) a um vereador negro e que fez do presidenciável alvo de um inquérito por injúria racial, já foi usada pela filósofa Djamila Ribeiro, ícone do movimento negro, para descrever outros negros. 


Em junho, Ciro chamou Fernando Holiday (DEM), político ligado ao MBL (Movimento Brasil Liberal), de “capitãozinho do mato” ---referência à figura do negro que trabalhava para o senhor, perseguindo escravos fugitivos que compartilhavam sua origem africana.


“A pior coisa que tem é um negro que é usado pelo preconceito para estigmatizar, que era o capitão do mato do passado”, disse Ciro, frase que levou Holiday a tachá-lo de racista. O Ministério Público pediu, então, a abertura de uma investigação contra o pedetista.


Também Djamila, em seu recém-lançado “Quem Tem Medo do Feminismo Negro?” (Companhia das Letras), cola a expressão em outro negro, o comediante Marcelo Marrom.


A seu ver ele, “infelizmente, é um homem negro que faz piadas vergonhosas ridicularizando a si mesmo e a outras pessoas negras”. Age como uma espécie de neocapitão do mato, tentando caçar a dignidade e a autoestima que há anos lutamos para ter”.


Para Holiday, "a ofensa é injúria racial independente de quem a faça. Inclusive, as primeiras denúncias relacionadas a isso que enviei ao Ministério Público, em 2015, foram de ativistas do movimento negro que se sentem nesse direito". 


Hoje, continua o vereador, "grande parte dos ativistas propagam o racismo em uma tentativa desesperada de manter os outros negros numa espécie de senzala ideológica". 

Em 2016, num post que o MBL viu como positivo a Holiday, Djamila disse que “a figura do capitão do mato foi construída pelos brancos escravocatas”. Falava de Holiday, que só chamou de Fernando Feriado (o sobrenome dele, se traduzido em português). “Já perdi a paciência com a cisma que as pessoas  brancas estão com ele. Dos 55 vereadores eleitos, mais da metade é reacionária e branca, mas o grande problema é o Fernando Feriado.”


Para Djamila, Ciro é um homem branco de classe alta. Ela, uma mulher negra filha e neta de domésticas.
Logo, ela pode falar em “capitão do mato” se bem entender, porque “uma coisa somos nós, discriminados historicamente, pontuarmos isso para uma outra pessoa negra”.

“Ciro Gomes é um cara da classe alta, com todos os privilégios, acusando um homem negro de ser capitão do mato. Acho que só existe essas pessoas porque existe o racismo. As pessoas brancas precisam se responsabilizar, não ficar só apontando o dedo para pessoas negras que reproduzem a opressão também”, disse à Folha na Flip.


Ciro “está posicionado num lugar do poder, no topo, então precisa se conscientizar disso. Falo do mesmo lugar social próximo do Fernando, que por ser negro e sofrer com o racismo”, afirmou.


Para a escritora Conceição Evaristo, voz do movimento negro, quando Djamila rotula Marcelo Marrom de “capitão do mato”, cumpre uma função pedagógica, e não discriminatória, pois chama a atenção de alguém que faz parte de seu próprio grupo.

Além disso, diz, quando Ciro, um branco, se vale dos mesmos termos, esquece-se de que os capitães do mato não eram totalmente livres para contestar os brancos, eles não tinham completa autonomia para dizer que não queriam perseguir outros negros.


Joice Berth, arquiteta e ativista da causa negra, acha que capitão do mato não é exatamente um xingamento, por se tratar de uma figura que existiu na história.

Para ela, o problema é Ciro ignorar o fato de Fernando Holiday ser um produto do racismo, um negro que rejeita políticas que beneficiam os negros, como cotas, porque ele se rejeita e tem baixa auto estima. “Quando um branco usa essa expressão, ele se esquece de que fez parte desse processo”, diz.

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