Descrição de chapéu Obituário Aretha Franklin (1942 - 2018)

Aos 76 anos, morre Aretha Franklin, a rainha do soul

Ela era a única cantora em atividade comparável ao trio Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Nina Simone

Aretha Franklin numa conferência de imprensa em março de 1973 AP

Thales de Menezes
São Paulo

“Eu já encontrei divas na minha vida. A maior delas é Aretha Franklin, e ela faz rapidamente você esquecer que está diante de uma. Sentada no piano, cercada de músicos, cantando e rindo, ela é só mais um dos rapazes. Ela é pura música.”

A frase de Keith Richards é reveladora, mas é claro que a americana Aretha Franklin nunca foi apenas um dos rapazes. Ela, que morreu nesta quinta-feira (16), aos 76 anos, era a única cantora ainda em atividade neste século comparável ao trio de vozes supremas Billie Holiday (1915-1959), Ella Fitzgerald (1917-1996) e Nina Simone (1933-2003).

Aretha foi diagnosticada com câncer em 2010 e estava "gravemente doente em sua casa ao lado dos parentes", segundo seu empresário. Nesta semana, ela recebeu visita de amigos próximos como Stevie Wonder e Jesse Jackson. 

Mais do que a voz poderosa, Aretha teve na versatilidade seu grande trunfo para se tornar a artista feminina a ter mais singles inseridos nas paradas da revista “Billboard”. Foram 112 gravações, 20 delas alcançando o topo da parada americana de rhythm’n’blues.

Para completar a soma de números impressionantes, a cantora vendeu 75 milhões de discos em todo o mundo e colecionou estatuetas do Grammy. Ganhou 18 vezes o maior troféu da música, em 32 indicações entre 1968 e 2008, além de mais três prêmios honorários pelo conjunto de sua obra de 42 álbuns de estúdio, 6 álbuns ao vivo e 131 singles.

A versatilidade fez Aretha exibir seu talento no soul, no jazz, no R&B, no rock, no funk e na música gospel, esta que foi seu primeiro ambiente sonoro. Aretha, nascida em 25 de março de 1942, em Memphis, Tennessee, era filha de um pastor, C.L. Franklin. Ele a incentivou a gravar, aos 14 anos, seu primeiro álbum. “Songs of Faith”. Lançado em 1956, tem apenas voz e piano, tocado por ela.

Aretha gravaria mais alguns discos de gospel nas décadas seguintes, em devoção ao pai. Mas, já no final dos anos 1950, revelou à família o desejo de cantar música pop. E o pai mais uma vez a ajudou, contratando professores e consultando executivos de gravadoras.

Sondada pela Motown, que abrigava os grandes nomes da música negra americana, ela acabou contratada pela Columbia em 1961. E a escolha foi a melhor possível, para a cantora e também para o selo. John Hammond, lendário produtor que fizera fama com Billie Holiday, cuidou das gravações de Aretha na Columbia. Foram nove álbuns primorosos entre 1961 e 1966, mas sem um estouro de sucesso popular.

A primeira grande virada na carreira veio em 1967, quando assinou contrato com a Atlantic. Seu primeiro álbum pelo novo selo é um dos principais discos dos anos 1960: “I Never Loved a Man the Way I Love You”. Ao lado do envolvente soul na faixa-título, o disco trouxe “Respect”, versão imbatível que ela fez para um single de Otis Redding lançado três anos antes.

A canção, na qual ela diz que seu único pedido ao amante é que ele a respeite quando voltar para casa, passou a ser o cartão de visitas da cantora. Várias vezes regravada, ganhou dimensão de hino junto a movimentos feministas.

Além de seu maior sucesso, o álbum de estreia na Atlantic tinha também composições da própria Aretha, como “Baby Baby Baby” e “Dr. Feelgood”, e uma magistral regravação de “A Chance Is Gonna Come”, de Sam Cooke. Esta faixa e “Respect” atestam uma das características marcantes de Aretha, que é dar versões pessoais e muitas vezes superiores aos sucessos de outros artistas.

Nos anos seguintes, encadeou hits: “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, “Chain of Fouls”, “Think”, “Share You Love with Me”, “Spanish Harlem” e outra regravação que liderou as paradas, “Bridge Over Troubled Waters”, original de Simon & Garfunkel.

Se soul, R&B e jazz transitaram desde cedo nos gêneros abraçados por Aretha, algumas regravações a aproximaram das plateias roqueiras, como “Eleanor Rigby”, dos Beatles, e “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones.

No final dos anos 1970, entre a disco music e o punk rock, ela perdeu espaço na mídia e os discos não venderam tanto. Consumo intenso de cigarros e álcool eram aliados de problemas de saúde e muita luta contra a obesidade. Tudo isso prejudicava também sua vida fora de palcos e estúdios.

Sua guinada de volta ao sucesso só veio com mais uma demonstração da facilidade para assimilar outros gêneros e mesmo assim exibir uma personalidade musical potente. “Jump to It”, faixa que dá nome a seu álbum de 1982, liderou as paradas por quatro semanas seguintes. Com produção do então badalado Luther Vangross, o trabalho apontava para um som mais moderno, de balanço pop.

Aí veio a radicalização em busca do público jovem, com “Who’s Zooming Who?”, de 1985. Pela primeira vez, depois de 33 álbuns na carreira, Aretha lançou um que ultrapassou um milhão de cópias vendidas. Em 1987, ela conseguiu emplacar seu último single em primeiro lugar, “I Knew You Were Waiting (For Me)”. Este dueto com George Michael também renderia mais um Grammy para a estante da sala.

A partir dos anos 1990, seu ritmo de trabalho foi diminuindo a cada temporada. Influência também de seu notório medo de avião. Depois de um acidente em 1984, sem vítimas fatais, ela desistiu de voar e a partir de então só fez shows nos Estados Unidos, viajando de carro.

Nos últimos 20 anos, lançou apenas seis álbuns, um deles constrangedor: “Aretha Franklin Sings the Great Divas Classics”, de 2014. Em busca de popularidade, regravou ali canções de supostas “divas” que estão mais para apenas esforçadas discípulas, como Alicia Keys, Adele e Chaka Khan. As regravações ficaram muito melhores, mas sem fazer sucesso.

Em 2010 e 2013, Aretha cancelou apresentações para tratamentos médicos, envolta em rumores sobre câncer, não confirmados por ela. No ano passado, voltou a ter shows cancelados, por ordens médicas. Sua última performance foi em novembro de 2017, em um evento para o instituto de pesquisas de combate a Aids criado por Elton John.

Aretha deixa quatro filhos, de pais diferentes. O primeiro, Clarence, nasceu quando ela tinha apenas 13 anos, em 1955. O segundo, Edward, nasceu dois anos depois. Os dois foram criados pela avó. Em 1964, ela teve o terceiro, Teddy Richards, que depois seria guitarrista de sua banda de apoio. O quarto, Kecalf, veio em 1970.

O primeiro casamento, com Ted White, foi um relacionamento abusivo, entre 1961 e 1968, encerrado com denúncias de espancamento. Depois foi casada com o ator Glynn Turman, entre 1978 e 1982. Seu companheiro por mais tempo foi Willie Wilkerson. Estiveram juntos por vários períodos desde os anos 1970, até a separação definitiva em 2012.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.