Após quase 50 anos no mesmo lugar, Museu da Casa Brasileira pode ser despejado

Fundação Padre Anchieta manifestou não querer renovar contrato de comodato com a instituição em 2021

Isabella Menon
São Paulo

O Museu da Casa Brasileira pode perder sua sede, um casarão na Avenida Faria Lima, após o fim de um contrato de comodato com a FPA (Fundação Padre Anchieta), proprietária do imóvel”. O contrato vence em 2021.

Segundo a diretora-geral do museu, Miriam Lerner, a fundação afirmou não querer renovar o contrato. Firmado em 1971, o documento previa a concessão por 50 anos.

 
Questionada, a direção da fundação diz que seu pedido não significa que a situação esteja definida, mas reiterou que a renovação do contrato não será automática. Em nota, eles acrescentam que o órgão “poderá discutir com a Secretaria da Cultura e o governo do estado o que for mais conveniente para as partes”.

A fundação não explicou o que motivou a não renovação do contrato do museu e não informou se haverá um projeto da Secretaria de Estado da Cultura para aquele endereço. 

Procurados, representantes da secretaria confirmaram que receberam o ofício da fundação protocolando o pedido de não renovação automática do comodato do prédio por mais 50 anos.

Exterior do Museu da Casa Brasileira
Museu da Casa Brasileira | Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano; ter. a dom., das 10h às 18h - Divulgação

Segundo o órgão estadual, a lei determina que, para não haver renovação automática, é necessária a solicitação com três anos de antecedência. “Foi isso que o presidente e o conselho [da Fundação Padre Anchieta] atuais fizeram, deixando a decisão para a próxima gestão, que se inicia no ano que vem”, afirma a pasta.

Essa prática vem acontecendo com outros espaços culturais do estado de São Paulo. Um exemplo é o Paço das Artes, que foi despejado do prédio que pertence ao Instituto Butantan, em 2016, e hoje ocupa uma parte da sede do Museu da Imagem e do Som.

O imóvel da Faria Lima foi construído por Fábio da Silva Prado, prefeito de São Paulo ente 1934 e 1938, e por sua mulher, Renata Crespi Prado.

O espaço se dedica a realizar exposições de arquitetura e design brasileiros, além de abrigar um tradicional evento de música erudita sempre aos domingos. 

O casal Prado viveu ali entre 1945 e 1963, ano em que o ex-prefeito morreu. Cinco anos depois, a viúva doou o imóvel à Fundação Padre Anchieta com a condição de que fosse usado para fins culturais.
Além de ter um acervo com objetos de design e arquitetura, como poltronas e outros móveis, o museu se tornou uma referência em história do design no país. 

No segundo andar da construção da década de 1940 há uma exposição permanente de parte do acervo do casal que ali viveu.

Entre as peças expostas estão fotografias, talheres, louças, quadros de Candido Portinari e Di Cavalcanti, além de um busto de Renata Crespi esculpido pelo modernista Victor Brecheret.

O museu também recebe feiras paralelas de design, gastronomia e moda, que acontecem nos 6.000 metros quadrados do jardim da casa. A diretora do museu afirma que esses eventos atraíram diferentes públicos para dentro da instituição.

“A pessoa que vai às feiras precisa passar pela sala expositiva, o que começou a atrair um público mais diversificado”, afirma Miriam Lerner.

Em 2016, o museu recebeu 140 mil visitas e, em 2017, 156 mil —um aumento de 11%.  “Nos últimos anos temos conseguido aumentar também nossa a captação de recursos”, acrescenta Lerner, que diz não saber qual espaço o museu poderá ocupar caso a sede não seja mais a da Faria Lima.

Segundo ela, outro problema causado pela saída da sede atual seria a perda da identidade do museu, que, após quase cinco décadas ali, estaria “fortemente ligado a este endereço”.

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