Destaque de festival, 'Dogman' mostra violência nas periferias da Itália

Drama de Matteo Garrone está na Festa do Cinema Italiano, que exibe longas da produção atual

Guilherme Genestreti
São Paulo

“Dogman” é um filme sobre machos. Vários tipos de machos. Dos cães que atulham a tela, dando nome ao longa, e, principalmente, dos homens que se esmurram para provar valentia naquele lugarejo perdido da Itália.

Um deles é Simone, um brutamontes cocainômano que, feito um pitbull raivoso, aterroriza os pequenos comerciantes de uma área depauperada. Domar a fera é tarefa que desaba sobre Marcello, homúnculo franzino como um galgo que ganha trocados dando banho em cachorros.

O drama social marca a volta do diretor romano Matteo Garrone à crueza das ruas de seu país, já retratada em “Gomorra”, filme de 2008  sobre os meandros da máfia em Nápoles.  

Edoardo Pesce e Marcello Fonte em cena do filme 'Dogman', de Matteo Garrone, que está na programação do festival
Edoardo Pesce e Marcello Fonte em cena do filme 'Dogman', de Matteo Garrone, que está na programação do festival - Divulgação

Depois de disputar a Palma de Ouro em Cannes, “Dogman”, desembarca no Brasil como destaque da 8 ½ Festa do Cinema Italiano. O festival começa nesta semana em 12 cidades brasileiras e exibe um panorama da produção contemporânea do país europeu. 

É simbólico que seja esse o título mais vistoso entre os 11 filmes da mostra. Para parte da crítica, o embate central de “Dogman” reverbera a ascensão da extrema direita, em marcha na Itália atual. 

O nova-iorquino David Ehrlich, maior crítico do site IndieWire, viu na lealdade canina de Marcello ao perverso Simone uma alegoria do fascismo.

Edoardo Pesce, intérprete do segundo, discorda disso.

“Politicamente, ‘Dogman’ não me parece estar nem à direita e nem à esquerda”, afirma o ator romano.“Não há nenhuma ligação entre o filme e a política atual italiana.”

Pesce, que teve de passar por uma dieta para ganhar os músculos intimidadores de seu personagem, está no Brasil para promover esse e outro filme que também está na programação, “Fortunata”. No drama dirigido por Sergio Castellitto, que abre a mostra, ele vive um marido abusivo. 

“É uma forma de exorcizar a violência”, diz o ator sobre os seus papéis de sujeitos truculentos nos dois longas. “É um mundo muito violento, mesmo em um nível indireto. Se você não acompanha o ritmo, se não se coloca em competição, a sociedade o violenta.”

Em “Dogman” Pesce personifica o braço dessa violência. Seu Simone perambula descontrolado, quebra bares e distribui socos e ameaças aos que orbitam aquele bairro de cores cinzas —uma periferia atemporal e não situada no mapa que encapsula toda uma ideia de um sul da Itália de pobreza e violência. 

“Ele é alguém que tem visão do futuro limitado a meros dez minutos. É um sujeito que age pelos instintos imediatos.” 

Marcello Fonte em cena do filme 'Dogman', de Matteo Garrone, que está na programação do festival
Marcello Fonte em cena do filme 'Dogman', de Matteo Garrone, que está na programação do festival - Divulgação

Na outra ponta está Marcello, papel que rendeu a seu intérprete, Marcello Fonte, o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes deste ano. Ele parece terno, ama os cães de sua loja, mas nutre uma relação ambivalente, meio masoquista e meio sádica, com Simone, a quem vende cocaína. 

“Os personagens tentam ser machos, mas não homens. Simone tenta bancar o durão, mas no fundo é um menino que quer carinho. Marcello tem fascínio pela masculinidade que faz mal. Ser homem é outra coisa”, afirma Pesce.

Mesmo diante de um drama naturalista como “Dogman”, o ator não deixa de encarar Garrone como diretor de fábulas. “Ele se interessa não pelos crimes, mas pelo fator psicológico. Parte dessas histórias para universalizá-las.”

A próxima empreitada do diretor será uma fábula puro sangue. Em novembro, Garrone começa sua adaptação do clássico “Pinocchio”.

O festival exibe “Uma Questão Pessoal”, drama sobre um soldado atormentado e último filme de Vittorio Taviani, cineasta morto em 2017. Do veterano Gianni Amelio, traz o melodrama “A Ternura”, centrado na figura de um advogado que vê sua afeição aflorar por uma família de vizinhos.


8 ½ Festa do Cinema Italiano
Qui. (2/8) a qui. (8), em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Vitória, Belém e Goiânia. Para a programação completa, acesse: festadocinemaitaliano.com.br
 

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