Filme 'O Animal Cordial' é terror que não quer apenas distrair

Assuntos comuns à realidade brasileira como feminismo e racismo estão presentes na trama

Leonardo Macedo
São Paulo

Um filme de terror que não seja apenas entretenimento. Esse aposto encaixa-se bem em  “O Animal Cordial”, da diretora Gabriela Amaral de Almeida, discutido após pré-estreia gratuita, promovida pela Folha no dia 8 de agosto.

"O gênero do terror nunca esteve em baixa, mas alguns críticos criaram o termo 'novo terror' para dar maior destaque a filmes que surpreenderam dentro da categoria", disse Guilherme Genestreti, repórter de cultura da Folha.

O filme apresenta uma trama de sobrevivência dentro de um restaurante em São Paulo, onde Inácio (interpretado por Murilo Benício) é um gerente exigente. Quando o lugar é assaltado, Inácio rende os bandidos e transforma o local em um cenário de violência e loucura, não apenas contra os algozes, mas também contra clientes e funcionários.

Ao longo da narrativa, Gabriela Amaral aborda vários temas comuns à realidade brasileira. Feminismo, racismo, homofobia, xenofobia e desigualdades sociais aparecem em diferentes camadas, mas não de maneira panfletária. Em nenhum momento, o filme tem sua narrativa claustrofóbica e violenta atravessada diretamente por esses discursos. Para a diretora, a intenção é mostrar que todo mundo é capaz, sob pressão, de atos terríveis, não havendo, de fato, vilões e mocinhos.

Rodrigo Teixeira, que produziu obras como “Me Chame Pelo Seu Nome”, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2018, diz que ficou impressionado com o roteiro. “Conversamos rapidamente sobre o projeto, me interessei. Em pouquíssimo tempo, ela me apresentou um argumento, foi coisa de seis dias, o material era muito bom. Foram poucos os projetos que recebi que tinham o peso e o amadurecimento como o apresentado pela Gabriela.”

O trabalho da diretora na construção dos personagens foi destacado pela atriz Luciana Paes. “O grande desafio não foi encontrar a loucura na Sara, mas compreender que ela anda ao meu lado no ônibus. Há um foco no cansaço e o que uma pessoa exausta pode fazer. Ela toma decisões ruins e não tem energia para corrigi-las, tornando a fazer más escolhas numa bola de neve que muitas vezes chega a extremos”, afirmou.

“É um filme de um gênero que é o terror, mas o roteiro é só um pretexto para dizer coisas mais profundas. Meu personagem é um homem hétero padrão, mas fomos atrás de buscar a humanidade desse personagem, onde e em qual situação ele se fragiliza”, conta Jiddú Pinheiro, sobre Bruno, seu personagem na trama.

Questionada sobre a escolha do gênero terror e seu alcance, Gabriela Amaral respondeu que, “do ponto de vista artístico, estamos vivendo um período cheio de monstros”. “Eu acho que esse gênero, hoje, serve para você decodificar essa angustia, essa tensão e indefinição que a gente está vivendo. As sociedades têm períodos de ruptura e de começar algo novo e acredito que estamos vivendo esse momento que vem carregado do medo do desconhecido”.

O filme “O Animal Cordial” entrou em cartaz no dia 9 de agosto. O longa já rendeu prêmio de melhor ator a Murilo Benício no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Gabriela Amaral e Luciana Paes levaram as premiações de melhor diretora e melhor atriz, respectivamente, na premiação FantasPoa 2018.

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