Freiras cultivam nudez e maconha em filme nacional sobre onda conservadora

Ney Matogrosso está no elenco de Sol Alegria, longa de Tavinho Teixeira que abre Mostra de BH

Guilherme Genestreti
São Paulo

Criança nos anos 1970, o cineasta paraibano Tavinho Teixeira se trancava no quarto com as primas e dublava canções de Ney Matogrosso. A mãe esmurrava a porta: “Não pode, não pode!”. 

À subversão infantil seguiu-se uma trajetória de filmes  anárquicos que culmina em “Sol Alegria”, terceiro longa do diretor, hoje com 53 anos.

O filme, que abre a Mostra de Cinema de Belo Horizonte nesta semana após incursões por festivais em Nova York e em Roterdã, amontoa alguns desses seus pilares libertários. 

Cena do filme 'Sol Alegria', de Tavinho Teixeira
Cena do filme 'Sol Alegria', de Tavinho Teixeira - Divulgação

Há ali militantes contra uma escalada conservadora, há freiras que cultivam maconha, travestis que saem montadíssimas em cortejo e rapazes que expõem toda a sua pele no mato. Ney, o ídolo de várias décadas atrás, dá as caras no papel de um toureiro-poeta que beija homens e mulheres.

Teixeira diz, contudo, que não se trata de um manifesto político. “Quis que esse filme fosse uma bomba, mas não uma que mata. É para ser uma bomba que dá uma clareada nessa obscuridade toda.”

Na trama, a tal escuridão ganha a forma de uma ditadura em que pastores evangélicos detêm os mais importantes cargos políticos no país. 

O diretor interpreta o patriarca de uma família de terroristas que, após cometer um atentado, cai na estrada e se refugia num convento. Ali no monastério, monjas desfilam nuas e se entregam a brinquedos eróticos, a canções de Bertolt Brecht e ao canabismo. 

“Vejo a maconha como uma coisa mística, que permite repensar a condição humana”, afirma o cineasta. À libertação pela erva ele acrescenta a libertação pela carne, que no filme se traduz no pansexualismo dos personagens. Nele, corpos de todas as formas e gêneros se enroscam. 

O próprio Teixeira não é figura que se deixa encaixar em rótulos sexuais. “Tenho essa curiosidade pela forma como as pessoas fazem sexo. O desejo está em todo lugar. E o outro é um alimento incrível”, diz ele, expoente de uma produção que com frequência é colocada na gaveta LGBT. 

Pai da atriz Mariah Teixeira, o paraibano despontou tarde como cineasta, dirigindo seu primeiro filme, “Luzeiro Volante”, em 2011. Três anos depois, veio um segundo, “Batguano”. Nessa comédia ele interpreta Robin, um dos polos de um casal de “bichas velhas”; o outro é um Batman grisalho. 

Figura conhecida no universo artístico de João Pessoa, o poeta e ator se tornou diretor de cinema meio por acaso. Ao acompanhar a filha nas gravações de um curta no interior de São Paulo, diz que ficou “amigo do pessoal da equipe”. Bolou um roteiro na hora que resultou em “Luzeiro Volante”. 

“Sol Alegria”, seu terceiro longa, alça voos maiores. É o primeiro de sua carreira que chega aos três dígitos. Com R$ 700 mil de um edital estadual, ele rodou ao longo de 23 dias uma produção mais esmerada do que às anteriores. Mariah, que interpreta uma revolucionária lasciva no filme do pai, assina a codireção. 

O início do filme, com o clima devasso do “bas-fond” em torno de um cais, remete ao “Querelle”, de Fassbinder, com seus marinheiros à procura de outros homens. Mas o que se segue tem mais a ver com 
certo caos de Rogério Sganzerla ou de Andrea Tonacci. 

“O cinema marginal não é só inspiração estética. É marginal por condições. O que eu faço é um cinema de garagem.”

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