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Leis de incentivo para a cultura sufocam o teatro, diz Antonio Fagundes

Carreira teatral do ator, que aos 16 anos entrou para o Teatro de Arena, é tema de livro

Antonio Fagundes no espetáculo "Atlantic’s Queen", em 1965, no Festival de Teatro Amador – SP, no qual obteve o prêmio de melhor ator
Antonio Fagundes no espetáculo "Atlantic’s Queen", em 1965, no Festival de Teatro Amador, no qual obteve o prêmio de melhor ator - Acervo Pessoal de Antonio Fagundes
Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Antonio Fagundes era a mascote do Teatro de Arena quando entrou para a companhia de José Renato, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, em 1966. Tinha 16 para 17 anos, saído de um grupo amador que formara nos círculos de seu colégio Rio Branco, em São Paulo.

No Arena, teve como madrinha a atriz Myrian Muniz e convivia com nomes como Paulo José e Célia Helena. "Eles brincavam que eu era 'relativamente capaz'. Não tinha nem carteira de identidade na época", lembra o ator.

É dessas rememorações que é feito "Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator", livro de Rosangela Patriota que repassa os mais de 50 anos de carreira do artista, em especial sua trajetória no teatro.

A edição é costurada por textos críticos, fotos de arquivo e pesquisas históricas, mas, principalmente, por entrevistas de Fagundes à autora.

Dá especial atenção a períodos como o do Arena, seus anos de formação, tanto artística quanto intelectual. Era um espaço em que se conseguia unir arte e política de forma efetiva, algo que não existe mais hoje, na opinião do ator.

"E, quando existe, são algumas ações, não é um movimento. A ditadura, especialmente depois do AI-5, sufocou a discussão inteligente. A gente vê uma tentativa de retomada, mas retomada a partir da onde? A gente não conhece nem a nossa história."

O livro ainda reserva um bom espaço à Companhia Estável de Repertório, grupo que o ator manteve durante a década de 1980 e com o qual montou trabalhos como "Cyrano de Bergerac", com direção de Flávio Rangel.

A experiência no coletivo, quando Fagundes produzia as montagens, grandiosas e de elencos numerosos, é lembrada por ele ao falar dos mecanismos de produção hoje.

Antonio Fagundes na peça "Gata em Teto de Zinco Quente", em 1977, no Teatro Copacabana (Rio)
Antonio Fagundes na peça "Gata em Teto de Zinco Quente", em 1977, no Teatro Copacabana (Rio) - Acervo Pessoal de Antonio Fagundes

Crítico da dependência de leis de incentivo, ele atualmente financia suas produções com recursos próprios.

Dessa forma, diz, consegue fazer temporadas longas e ter retorno de bilheteria —para ele, se uma produção só vive de patrocínio e não depende de ingressos, não há por que ficar longos períodos em cartaz.

"Baixa Terapia", seu espetáculo mais recente, foi apresentado em São Paulo no ano passado todo, passou pelos Estados Unidos, está rodando pelo Brasil e, neste semestre, irá a Portugal. Em janeiro, volta ao Tuca, na capital paulista, onde pretende ficar mais um ano.

"Tenho uma teoria da conspiração: que essas leis incentivo fiscal que o governo propicia para a cultura [como a Rouanet] são para sufocar o teatro", comenta Fagundes.

"Eu me sinto sufocado quando tenho que submeter um texto meu à aprovação de pareceristas. Para mim, essa já é uma primeira censura. Depois você parte para uma censura mais grave, que é a busca do patrocínio, por gerentes de marketing. São ótimas pessoas, mas não entendem nada de teatro, eles querem é vender produtos."

Antonio Fagundes no espetáculo "Hair", no Teatro Aquarius (SP), em 1969
Antonio Fagundes no espetáculo "Hair", no Teatro Aquarius (SP), em 1969 - Acervo Pessoal de Antonio Fagundes

Para manter as produções, contudo, o ator não apenas investe em temporadas longas. Por vezes faz ensaios abertos, cobrando ingressos, e oferece entradas mais caras para quem quiser visitar o camarim após a sessão —em "Baixa Terapia", chegavam a R$ 180.

Também promove conversas com espectadores ao fim do espetáculo. "Sinto uma carência do público com relação ao que a gente faz. O brasileiro não tem ideia de como é o processo de criação teatral. Como é que o público pode gostar de alguma coisa que não tem ideia de como é feito?"

Fagundes enche plateias, mas muito se critica que seu processo de produção só funciona por ter um nome famoso. "Sempre que eu ouço isso, eu falo, espera aí, eu não comecei com esse nome, a minha primeira produção eu fiz aos 25 anos, então qualquer um pode fazer sim", afirma. "É que dá um trabalho infernal."

No livro de Patriota, o ator conta como a ida para a televisão foi também uma decisão financeira. "Precisava defender a minha ideologia [no teatro] e pagar as minhas contas".

Mas não foi por falta de dinheiro, e sim por falta de opções no mercado cinematográfico que participou de pornochanchadas nos anos 1970, como "Elas São do Baralho", de Sílvio de Abreu, e "A Noite das Fêmeas", de Fauzi Mansur.

"Eu não escondo isso. O passado não me condena."

Antonio Fagundes no Palco da História: Um Ator

  • Preço R$ 84, 90 (488 páginas)
  • Autor Rosangela Patriota
  • Editora Perspectiva
  • Lançamento SP qua. (8), das 19h às 21h30, na Livraria Cultura (av. Paulista, 2.073)
  • Lançamento Rio 16/8, às 19h, na Livraria Argumento Leblon (r. Dias Ferreira, 417)
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