Descrição de chapéu Artes Cênicas

Assim como o Brasil, o Québec não tem memória, diz canadense Robert Lepage

Expoente do teatro contemporâneo, ator e diretor apresenta espetáculo e exposição em São Paulo

MLB
São Paulo

Faz alguns anos, o diretor canadense Robert Lepage se deparou com um bloqueio. Participava de um evento sobre a cultura francófona do Québec e decidiu interpretar um texto do conterrâneo Jacques Brault. Mas logo viu que lhe falhava a memória.

"Percebi que o meu bloqueio não era apenas pelo fato de eu estar envelhecendo. Havia também questões pessoais, psicológicas, uma recusa inconsciente de se lembrar de certas coisas", afirma Lepage, 60, expoente do teatro canadense. "E pensei, por que bloqueamos ou desbloqueamos a nossa memória?"

Essa pergunta o levou à Québec de sua infância. Mais especificamente ao prédio onde cresceu, no número 887 da avenida Murray, bairro proletário da cidade canadense.

A peça "887", que o ator e diretor encena com seu grupo Ex Machina em São Paulo, parte de suas lembranças de criança, mas ressoa um tanto da história de seu país.

O prédio em que viveu o jovem Lepage era um aglomerado de classes sociais e moradores de origens distintas. Espelhava a sociedade quebequense e os conflitos que marcaram a província naqueles anos 1960 e 1970, quando afloraram movimentos nacionalistas e separatistas. 

"Havia tensão entre as comunidades francófona e anglófona", diz. "Mas nos esquecemos da nossa história. O Québec é uma sociedade que tem grãos de memória, tal como o Brasil. As pessoas não se lembram do passado, e parece que repetimos a história. É assim em vários países. Não é um acaso a ascensão da extrema direita na Europa."

Lepage viveu ele mesmo uma tensão recente. Teve as temporadas de duas peças, "Slav" e "Kanata", canceladas neste ano após protestos de falta de representatividade. 

A última, encenada pelo parisiense Théâtre du Soleil, narra a história do Canadá e foi acusada de não ter presença indígena no elenco. Perdeu patrocínios, porém foi reescrita e irá estrear no ano que vem, na França, com recursos próprios e o sufixo "episódio 1 - a controvérsia" no nome.

Mas em "887" Lepage costura um discurso mais poético do que político. Sozinho em cena, faz as vezes de um ator que precisa decorar um texto, mas não consegue —trata-se de "Speak White", poema de Michèle Lalonde que há meio século chamava a atenção para os conflitos na província. 

Usa então uma técnica mnemônica, em que associa os versos a lembranças antigas, já enraizadas no cérebro. Nas vertigens de memória, acaba voltando à sua infância e ao prédio da avenida Murray.

Lepage gosta de trafegar por um universo fabular, num jogo entre imagem e texto. Não à toa é frequentemente comparado ao diretor Peter Brook e ao cineasta Federico Fellini. 

Aqui, o edifício no número 887 ganha uma réplica sobre o palco, uma maquete de pouco mais de dois metros de altura que vai sendo manipulada pelo ator. Abrem-se portas, gira-se a estrutura sobre o seu eixo, revelando histórias de vizinhos e outros cantos da cidade, como um café.

As questões políticas surgem aqui e ali, mas sempre na visão de um Lepage criança. Uma maneira, diz ele, "muito mais direta e também ingênua" de tratar do assunto.

A todo tempo, brinca-se com a escala das coisas. Por vezes, o encenador é um gigante numa casa de bonecas. Noutras, os objetos surgem enormes ou em tamanho real.

"É um jogo entre nossas memórias mais recentes e as memórias distantes, das quais nem sempre temos muitos detalhes", afirma o diretor.

Seu jogo de lembranças vai fundo em "A Biblioteca à Noite", exposição que ele abre aqui na próxima semana. 

Ela foi inspirada no ensaio homônimo de Alberto Manguel, que ajudou a criar a mostra, e propõe um passeio virtual por dez bibliotecas reais —da histórica Alexandria à parisiense Sainte-Geneviève— ou fictícias, como a Nautilus, descrita por Júlio Verne em "Vinte Mil Léguas Submarinas".

"Manguel ainda vive um amor pelo objeto do livro. Mas estamos num mundo em que a memória das obras é quase toda digital, não temos mais uma relação sensorial com ela", diz Lepage. "A memória digital é demasiado exata, e na exposição falamos do livro como uma lembrança inexata, mais poética."

A mostra se divide em dois espaços expositivos. O primeiro traz uma réplica da biblioteca que Manguel mantinha em sua residência em Paris —atualmente desmontada. Já o segundo é feito de uma floresta, com altos troncos de árvores que têm por folhas as páginas de livros diversos. 

Ali, os espectadores utilizam óculos de realidade virtual e escolhem por qual das dez bibliotecas querem passear. Pode-se pular um local ou retornar ao mesmo diversas vezes. 

"As pessoas ficam em média 50 minutos na mostra, e há muita gente que volta duas ou três vezes à mesma biblioteca. Essa vontade de rever e rever, de olhar vários aspectos, é como nossa relação com o livro, de voltar uma parte, reler um trecho."

O conceito noturno passa por certa permissividade, embutida tanto na noite quanto na liberdade imaginativa do livro, e o bosque literário tampouco está ali por acaso. 

"A relação entre as árvores e os livros é muito íntima. Nas línguas orientais, muitas vezes o ideograma para 'livro' é o mesmo que para 'árvore', mas com um tracinho na raiz. No Japão, a palavra 'livro' também é usada para 'crescer'. E tenho a impressão que a ideia de potência está intimamente ligada à árvore e ao livro."

 

887

Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195. Qui. (27), sex. (28) e sáb. (29), às 21h. Ingr.: R$ 12 a R$ 40. 10 anos

A Biblioteca à Noite

Sesc Av. Paulista, av. Paulista, 119. Ter. a sáb., das 10h30 às 21h, dom., das 10h30 às 18h30. De 3/10 a 10/2/2018. Grátis (é preciso agendar em sescsp.org.br/avenidapaulista ou na unidade). 14 anos

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