Descrição de chapéu Crítica

Experimental, longa português 'A Fábrica de Nada' é instigante e astuto

Filme narra de modo desconcertante e sintético a desilusão dos trabalhadores do mundo atual

Bruno Ghetti

A FÁBRICA DE NADA (idem)

  • Quando Estreia nesta quinta (27)
  • Preço 14 anos
  • Elenco José Smith Vargas, Daniele Incalcaterra, Carla Galvão
  • Produção Portugal, 2017
  • Direção Pedro Pinho

Veja salas e horários de exibição

O longa português “A Fábrica de Nada” dura três horas, e grande parte se dedica a discussões repletas de palavrório sindicalista, de operários que debatem sobre como lidar com a opressão do grande capital. Para alguns, pode soar antes como uma sessão de tortura que uma de cinema, mas mesmo que o filme de Pedro Pinho não tenha sido pensado para esse público, também ele há de se surpreender com uma obra inusitadamente fluida, viva. E que cativa pelo arrojamento estético e por sua humanidade, com relevantes reflexões sobre o trabalho no mundo moderno.

O diretor (da produtora coletiva Terratreme) une elementos de um caso verídico em Portugal, de uma peça holandesa e de falas de operários reais para compor o longa, que se passa em uma fábrica de elevadores. Os funcionários são surpreendidos quando a empresa decide conter gastos.

Os gerentes esgotam seu repertório de eufemismos, do tipo “Vamos tornar a equipe mais coesa”, mas os operários sabem que vem aí demissão em massa. E como ser desempregado está longe de uma situação auspiciosa, discutem sobre como reagir.

Cogitam uma greve, uma ocupação permanente da fábrica, iniciar uma empresa autogestora. Ninguém sabe qual é o melhor caminho, mas alguma resistência tem de ser oferecida. Eis a mensagem do longa: é preciso ousar para enfrentar o capitalismo avançado.

E o diretor é o primeiro a se lançar em ousadias. Quando a narrativa ameaça ficar convencional demais, ele experimenta. Insere comentários políticos em off; faz o elenco (não atores, em sua maioria) interromper a encenação para falar de vivências pessoais; quebra a ação para mostrar intelectuais discutindo política e o futuro da trama. A audácia maior vem no fim: um contundente número musical operário, em pleno ambiente fabril.

A experimentação cobra um preço: nem tudo funciona. A inserção metalinguística de um personagem cineasta, por exemplo, em geral mais atrapalha que enriquece. Mas o longa, sempre instigante e astuto, impõe-se pelos seus acertos. Mereceu o prêmio da crítica na Quinzena dos Realizadores, em Cannes.

Uma cena se destaca: um operário calejado faz as contas de quando poderá se aposentar. “Ainda faltam 17 anos. Mas eu já morri há uns 20.” Difícil pensar em modo mais desconcertante e sintético de falar da desilusão dos trabalhadores do mundo atual.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.