Fotógrafa relata experiências em conflitos na Nicarágua

Susan Meiselas, que registrou a Revolução Sandinista, integra evento em SP

João Perassolo
São Paulo

Em 10 de janeiro de 1978,  Pedro Joaquín Chamorro, então dono do La Prensa, jornal de oposição ao governo da Nicarágua, foi assassinado em Manágua, capital do país.

A 6.000 quilômetros dali, em Nova York, uma jovem fotógrafa americana acompanhava com curiosidade o crime ocorrido na pequena nação da América Central, que vivia sob uma ditadura apoiada por seu país.

“Era surpreendente ler sobre um lugar que tinha uma relação tão longa com os Estados Unidos e sobre o qual eu não tinha a menor ideia”, diz Susan Meiselas. “Demorou alguns meses para que eu pudesse me imaginar indo para a Nicarágua. Mas havia uma parte de mim que dizia que a única maneira de conhecer um lugar era ir até lá.”

Meiselas, 70, é uma das mais importantes fotógrafas de guerra contemporâneas, conhecida mundo afora por documentar conflitos sociais na América Latina. 

Naquele final da década de 1970, sua curiosidade a levou a clicar de perto o levante popular que se seguiu ao assassinato de Chamorro e que poria fim à ditadura de quatro décadas da família Somoza.

A fotógrafa participa no sábado (29), em São Paulo, do Festival Zum, promovido pelo Instituto Moreira Salles, em que conversa com a jornalista Dorrit Harazim a respeito do registro de imagens em conflitos sociais.

“A fotografia é um registro e uma perspectiva”, diz Meiselas. “Meu trabalho é, com frequência, não o imediatismo de um imagem, mas a imagem ao longo do tempo”.

No debate, a integrante da agência Magnum irá falar sobre as fotos daquele período, que capturam um momento sangrento da história da América Latina: a transição de uma das nações mais pobres do continente de uma ditadura para um regime popular de viés socialista, o sandinismo.

Publicados em jornais e revistas pelo mundo, os instantâneos de Meiselas mostram tanto a opulência do general Somoza antes de ser deposto quanto a população pobre da Nicarágua, protegida por barricadas em frente às casas, com os rostos de expressão dura cobertos por lenços.

A imagem mais famosa daqueles anos é o retrato de um revolucionário segurando uma metralhadora em uma mão e arremessando um coquetel molotov feito com uma garrafa de Pepsi com a outra.

Clicada um dia antes de o ditador Somoza fugir do país definitivamente, em julho de 1979, “O Homem Molotov” tornou-se um símbolo da Revolução Sandinista, foi reproduzida em murais, grafites e camisetas e entrou para a lista das imagens mais influentes de todos os tempos da revista Time.

Meiselas conta que, naquele momento, a Nicarágua era um ambiente em constante mudança, e seu papel como fotógrafa era usar a intuição para ficar em lugares “onde as coisas pudessem acontecer”.

No país, foi levada por um jornalista ao quartel-general do sandinismo, o bairro indígena de Monimbó, na cidade de Masaya. Lá, acompanhou o treinamento de guerrilheiros, que aprendiam a manusear bombas, correr e saltar de árvores.

Meiselas vem a São Paulo em um momento em que a Nicarágua enfrenta uma das mais violentas revoltas desde a Revolução Sandinista

A onda de protestos atual, que começou em abril, foi desencadeada por uma frustrada tentativa de reforma previdenciária proposta pelo presidente Daniel Ortega, que se tornou conhecido justamente como líder na derrubada da ditadura Somoza, em 1979. 

Os conflitos deste ano já custaram a vida de mais 300 manifestantes contrários ao governo.

Meiselas esteve na Nicarágua em junho e faz um paralelo entre a situação atual e a que presenciou nos anos 1970. “Naquela época, as pessoas viviam em estado de suspensão, sem saber aonde a revolução lhes levaria. Acredito que hoje a população se sinta da mesma maneira —há uma imprevisibilidade que causa ansiedade.”

Diz não saber como vai utilizar as fotos que fez, já que “o que está acontecendo agora é mais importante do que as minhas imagens”.


Festival Zum
IMS - av. Paulista, 2.424. Sex.: a partir das 18h30. Sáb. e dom.: a partir das 10h. Grátis​

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