Descrição de chapéu Livros

Lourenço Mutarelli publica seu livro favorito, pelo qual sofreu horrores

'O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV' resulta de passagem deprimente por NY e bloqueio criativo

Thales de Menezes
São Paulo

Lourenço Mutarelli, 54, desenha, pinta e escreve. Entre seus livros adaptados à tela, os filmes de maior repercussão são "O Cheiro do Ralo" (2006) e "Natimorto" (2009). Neste, o próprio autor interpreta um dos personagens principais.

Em 2018, é o lado escritor que ganha atenção, com o lançamento de "O Filho Mais Velho de Deus e/ou O Livro IV", romance sobre um americano que troca de nome e se muda para Nova York num programa de proteção a testemunhas. Lá ele trava contato com uma organização que acredita na existência de criaturas alienígenas que assumem forma humana para se infiltrar na Terra. Também se envolve com uma mulher dedicada a estudar demônios e suas manifestações em várias épocas e culturas.

O escritor Lourenço Mutarelli, autor do romance ‘O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV’  - Adriano Vizoni/Folhapress

O livro chega com dez anos de atraso, após Mutarelli assumir um bloqueio criativo. Em 2007, passou semanas em Nova York, no projeto Amores Expressos, da Companhia das Letras, que levou 17 autores a uma residência em 17 cidades para escrever livros. A coleção conta com nomes como Bernardo Carvalho e Daniel Galera.

O romance é o melhor trabalho do autor. Além da infinidade de demônios listados e explicados no livro, outro lado tenebroso da narrativa é que cada personagem é homônimo de um serial killer condenado por crimes hediondos.

Assim, o enredo é pontuado por descrições de atrocidades e pode ser classificado entre o drama urbano e a ficção científica.

 

Por que Nova York?

Pedi para ir a Beja, em Portugal, mas os editores acharam que era melhor Nova York. Não tinha a menor vontade de conhecer, mas era o único dos convidados que nunca tinha ido para lá. Então passei um mês. Tinha de ter um blog, fazer não sei quantas fotos e escrever uma história de amor. Aí sofri meu primeiro bloqueio criativo.

O que aconteceu?

Era necessário fazer um resumo de começo, meio e fim da história, umas cinco páginas, com descrição dos personagens e o caramba. E eu não escrevo assim. Não sei para onde minha história vai, tenho de ir encontrando o caminho enquanto escrevo. E isso me travou. Eu tinha ido em 2007 e retornei para lá em 2008, por mais 15 dias. E voltei a beber, estava há 15 anos sem beber. De volta ao Brasil, fiz um livro muito ruim, chamado "E Ninguém Gritava na Ponte". Eles não gostaram, eu também não. Como tinha muitos projetos com a Companhia das Letras, deixei de lado.

É mais difícil escrever um livro sob encomenda?

Não, mas todo mundo que entregou os primeiros livros da coleção falou sobre um escritor brasileiro em um outro país. Então a editora passou a pedir personagens que não fossem escritores. E depois até pediram que não houvesse personagens brasileiros no livro. Ficou difícil, porque sou brasileiro. Passei um mês em Nova York, não fiquei 40 anos. Então esqueci o argumento inicial e resolvi fazer outra história.

Quando começou a escrever esta?

Há quatro anos. Era um ruído que não saía da minha cabeça. Comecei a escrever sem pressa. Afinal, já estava anos atrasado. Nunca trabalhei tanto tempo num livro, nenhum teve tanta pesquisa. Considero meu melhor livro, nesse sentido de confecção.

Qual era sua rotina em Nova York?

Andava o dia inteiro. Gastava dinheiro pra caramba. Comprei muito disco, porque música é a minha religião. Nova York é um shopping center. Quando viajo, adoro passear num parque. Eu não gosto de museu, gosto de supermercado. Fiquei no Brooklyn e ia para Manhattan todo dia. Não tem muito banheiro público. Quando você anda o dia inteiro, é uma coisa estratégica descobrir os banheiros. Nunca comi no McDonald's, mas caguei muito lá.

O livro não traz detalhes da cidade. A trama poderia se passar em outro lugar, não?

Fui à Estátua da Liberdade e não desci do barco, voltei na hora. No Empire State, tentei subir cinco vezes, mas as filas eram enormes. Tudo ali a gente já conhece, absorveu informação de cinema e TV. Nada me atraiu. Para construir meu personagem, precisava de uma razão para ele se mudar para lá. Veio a ideia do programa de proteção a testemunhas. Comecei a pesquisar serial killers, talvez ele tivesse alguma coisa a ver com assassinos. Mas meu personagem é um cara medíocre, chato.

É muito engraçada a insistência dele em contar a todos que na escola era amigo de Richard Dean Anderson, o ator da série "MacGyver".

Como o personagem é um sujeito mediano, pensei em um cara que tivesse muito orgulho de ter sido amigo de um ator ruim. Aí em pensei no MacGyver. É um orgulho bobo ter quase intimidade com uma celebridade. Sei como é. Estudei no ginásio com uma menina que era meia-irmã do Tony Ramos.

Os serial killers citados como homônimos dos personagens são reais?

Os crimes e os nomes são todos reais. Pesquisei bastante. Queria crimes ultrajantes, como aquele em que os pais matam o próprio filho de fome. Quanto aos demônios, são nomes tirados de estudos sobre o tema. Tenho uma pesquisa muito longa sobre isso.

Na segunda parte do romance o foco é a relação do protagonista com uma mulher.

Acho que o livro é uma história de amor. Eu me apaixonei por essa personagem enquanto escrevia, isso nunca tinha acontecido para mim.

Fala de amor, mas também de assassinos e demônios. É um livro sobre o mal?

Sim. Acredito no mal como essência. Acho que o bem é uma coisa que não tem a ver com a gente, temos só um vestígio disso. Eu me exponho muito falando disso, mas tenho um irmão viciado em crack há 20 e tantos anos. Você vê o mal ali. Aquilo tem uma coisa além da decadência, da degradação humana.

Algumas obras suas foram adaptadas para o cinema. Pensa nessa possibilidade quando escreve?

Fiquei surpreso demais quando "O Cheiro do Ralo" chegou ao cinema. Porque meus quadrinhos nunca foram adaptados, e eles são muito mais próximos da linguagem do cinema. Não escrevo coisas para que possam ser vendidas para cinema e TV. É ótimo se vender, porque entra dinheiro. Uma merreca, mas ajuda.

Você ganha bem com a literatura?

Estou absolutamente falido. Vivo de aulas que dou no Sesc, o que não paga todas as contas. O que eu ganho com livro é ridículo. Recebo 10% do preço de capa, e ainda pago 27% de imposto de renda. Não tenho dinheiro para chegar até o final do ano. Vai ter uma exposição no Sesc, em novembro, com algumas coisas minhas, estou terminando umas pinturas, sem escrever neste momento. Quando começo a pintar, paro de escrever. Estou com 54 anos e tudo só piora, a cada ano está mais difícil. E acho que nem posso reclamar, estou numa grande editora, publico. Sou um dos que deram certo, mas dar certo com livro no Brasil é apenas isso. É muito triste.

O Filho mais Velho de Deus e/ou o Livro IV

Lourenço Mutarelli. Ed. Companhia das Letras. R$ 54,90 (336 págs.)

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