Refilmagem de 'Nasce uma Estrela' com Lady Gaga estreia em Toronto com pinta de Oscar

Na nova versão do filme, números musicais da americana são elogiados pontos altos da trama

Guilherme Genestreti
Toronto

Fincada no coração da maior cidade canadense, a King Street é uma dessas ruas compridas, sombreadas por arranha-céus com seus restaurantes, grifes e pubs genéricos no térreo que sulcam qualquer metrópole da América anglo-saxônica.
 
A poucas horas de começar o Festival de Toronto, uma das principais mostras de cinema do mundo, os seguranças começavam a instalar grades de ferro na via para fechar o tráfego de carros e separar a multidão de curiosos, nas calçadas, das celebridades hollywoodianas, que desfilarão pela rua.
 
Neste ano, nenhuma delas desembarcará com tamanho fuzuê quanto Lady Gaga.
 
A cantora de 32 anos despiu-se dos figurinos extravagantes para se expor de cara lavada como atriz em “Nasce uma Estrela”, terceiro remake da obra que já teve Janet Gaynor, Judy Garland e Barbra Streisand no elenco. Após estrear sob burburinho no Festival de Veneza, no fim de semana passado, o filme chega a Toronto com pinta de Oscar.
 
A Variety, principal publicação de cinema, crava que os membros da Academia estão entusiasmadíssimos com essa nova versão da obra, dirigida pelo ator Bradley Cooper, que também protagoniza o longa. A história gira em torno de um músico alcoólatra (Cooper), que se afeiçoa a uma cantora novata (Gaga) e vê a própria carreira declinar enquanto a dela decola.

Em comparação com as anteriores, o roteiro da nova versão dá ainda mais destaque à curva descendente do protagonista masculino. Já os números musicais de Gaga são elogiados como alguns dos pontos altos da trama.
 
A revista Variety mal se contém: “[A produção] tem a musculatura para conseguir o que só outros três na história conseguiram: ganhar as cinco maiores estatuetas (filme, diretor, ator, atriz e roteiro)”. Os outros três são “Aconteceu Naquela Noite”, “Um Estranho no Ninho” e “O Silêncio dos Inocentes”.
 
“Nasce uma Estrela” vai entrar em circuito brasileiro em 11 de outubro.

Bradley Cooper e Lady Gaga em 'Nasce Uma Estrela'
Bradley Cooper e Lady Gaga em 'Nasce Uma Estrela' - Divulgação

Quem pode embolar a estatueta tida já como certa para Cooper é o veterano Robert Redford, que aos 82 anos deve vir ao Canadá pela última vez como ator. Ele anunciou que “The Old Man & The Gun” será seu filme derradeiro como intérprete, o que pode fazer a Academia olhar com atenção especial à sua performance como um velho bandido.
 
Nos corredores do festival, comenta-se que a sessão de gala do longa, marcada para a noite da próxima segunda-feira, deve ser concorrida. A expectativa é que haja algum discurso emotivo por parte de Redford, ator central da geração chamada de Nova Hollywood, que subverteu a produção americana a partir dos anos 1960.
 
Outro tiro certo no Oscar que também passará pela King Street é “Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón. Sem nomes conhecidos no elenco e rodado em preto e branco, com um típico esteticismo que comove a Academia, aborda uma família mexicana de classe média que, como é comum na cultura latino-americana, nutre uma relação de proximidade e exploração com a empregada da casa.
 
Membro da Academia, um produtor que conversou com a reportagem afirma que a obra de Cuarón é hoje a favorita dos votantes na categoria de melhor longa em língua estrangeira.
 
O rebuliço causado pelo prêmio hollywoodiano é o maior chamariz do Festival de Toronto. Como ele ocorre numa cidade próxima ao território americano e numa época em que começam a ser lançados os filmes com cacife para competir no ano que vem, o evento é tido como a largada do Oscar.
 
Diretor artístico da mostra canadense, o londrino Cameron Bailey rebate a crítica de que o festival tenha na antecipação da premiação o seu maior atrativo.
 
“Com mais de 300 filmes de 83 países, a fonte que Toronto bebe é profunda”, diz. “Os longas que dependem das celebridades ou do rebuliço da temporada de premiações estão só na superfície.”
 
Bailey crê que a tônica desta edição esteja na subversão dos gêneros ou, em suas palavras, como “filmes que partem de estilos conhecidos e enveredam por novas direções”. O “Roma”, de Cuarón, seria um desses: “Parece um típico drama social do cinema de arte, mas é radicalmente engrandecido pelas inovações técnicas do diretor”.
 
Outro caso é o de “As Viúvas”, thriller de Steve McQueen (“12 Anos de Escravidão”).
 
“Ele oferece todos a diversão dos chamados filmes sobre assalto, mas também explora as dinâmicas de gênero, classe social e raça em Chicago”, diz. A história protagonizada por Viola Davis, gira em torno de quatro mulheres que assumem os negócios criminosos dos maridos, depois da morte deles.
 
Longa que abre este Festival de Toronto, a produção da Netflix “Legítimo Rei” é um épico sobre disputa de poder na Escócia medieval, com Chris Pine no papel de um monarca que luta contra os ingleses. A direção é de David Mackenzie, do faroeste moderno “A Qualquer Custo”. Espera-se que sua nova obra repita a mesma sanguinolência.
 
Bailey concorda que se trata de uma safra de filmes mais duros, inclementes.
 
“Os cineastas estão buscando entender as rápidas mudanças nos nossos panoramas sociais. Às vezes isso pode significar pedir ao público que salte no escuro com eles." 

Assista ao clipe de 'Nasce uma Estrela'

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.