Descrição de chapéu

'Uma Noite de 12 Anos' transfere qualquer um que não viveu sob ditadura ao regime militar no Uruguai

Ficamos confinados com Pepe Mujica e Mauricio Rosencof, compartilhando a experiência da restrição

Cássio Starling Carlos

Uma Noite de 12 Anos (La Noche de 12 Años)

  • Quando Estreia nesta quinta (27)
  • Elenco Antonio de La Torre, Chino Darín, Alfonso Tort, Soledad Villamil
  • Produção Argentina/Espanha/Uruguai, 2018
  • Direção Álvaro Brechner

Como é viver sob uma ditadura? Embora a palavra nos nossos tempos abrasivos tenha ficado desgastada pelos extremismos, até "cidadãos de bem" conseguem associar esse tipo de regime ao fim do direito de escolher.

"Uma Noite de 12 Anos" transfere qualquer um que nunca viveu tal experiência para o Uruguai durante o regime militar, que de 1973 a 1985 prendeu, torturou, despachou para o exílio e para o além aqueles que se arriscaram a desobedecer.

José Mujica, que em 2009 se tornou presidente do país, Mauricio Rosencof, jornalista e dramaturgo, e Eleuterio Fernández Huidobro, jornalista e escritor, eram três idealistas que se integraram ao grupo guerrilheiro Tupamaros e foram abatidos pela repressão.

O longa se detém no longo período em que eles foram presos políticos e recria, num esforço de dramaturgia bem-sucedida, a experiência no cárcere.

 
 

Filmes sobre ditaduras costumam abusar das cenas de tortura como forma de horrorizar. "Uma Noite de 12 Anos" evita o recurso fácil expondo a tortura física com brevidade. Na maior parte do tempo ficamos confinados com os personagens, compartilhando a experiência da restrição.

Os corpos ficam emaciados, as mentes tornam-se confusas e delirantes, o tempo desorienta-se dentro e fora da cabeça. O sofrimento maior, contudo, deriva da consciência de ser refém de um poder não apenas autoritário, mas absoluto, dimensão kafkiana que vem anunciada desde a epígrafe, um trecho de "Na Colônia Penal".

"Uma Noite de 12 Anos" não se limita a fortalecer o pacto de simpatia entre uma parcela do público e a geração de aniquilados.

No filme os guerrilheiros aparecem, independentemente das ideologias, como indivíduos. Têm famílias e profissão como todos nós.

O mesmo mecanismo de repressão que os abate controla, em outra medida, a sociedade, impedindo todo mundo de saber e de fazer escolhas. Assim, não se consegue manter distância dos personagens com o argumento de que eles eram "terroristas" ou "subversivos".

Outra camada emerge nas breves e exemplares interações com os militares na cadeia. Em vez de caracterizar os algozes como um grupo uniforme de brutos, o roteiro do também diretor Álvaro Brechner alcança o emocional de alguns desses personagens, humanizando-os.

Se a noite durou 12 anos no Uruguai, 7 na Argentina e 21 no Brasil, seus efeitos continuam por aí. Mesmo durante o dia, quando resolvemos tirar um cochilo, é importante saber que o Freddy Krueger não dorme no serviço.

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