Descrição de chapéu Análise Artes Cênicas

Como estudioso, mestre e editor, Jacó Guinsburg elevou o teatro no país

Formou gerações de atores e diretores, como Antonio Araújo

O professor Jacó Guinsburg na sede da Editora Perspectiva em São Paulo, em 2016

O professor Jacó Guinsburg na sede da Editora Perspectiva em São Paulo, em 2016 Lenise Pinheiro/Folhapress

Nelson de Sá
São Paulo

Morto neste domingo (21), aos 97 anos, Jacó Guinsburg nunca escreveu, dirigiu ou atuou em peça, mas o teatro o acompanhou por toda a sua trajetória.

Foi espectador interessado desde cedo e, por exemplo, seguiu de perto a vanguarda francesa dos anos 1950, o que o aproximou profissionalmente do teatro no Brasil.

Ele nasceu na Bessarábia, hoje Moldávia, veio ainda criança com o pai, ex-soldado russo, e cresceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo —onde se tornou um jovem comunista, a ponto de pegar em armas.

Um dos primeiros livros que editou, já na Perspectiva, em 1952, foi a sua própria tradução da peça "O Dibuk", do revolucionário judeu russo An-ski, até hoje em catálogo.

Amigo dos jornalistas Sábato Magaldi e Anatol Rosenfeld, escrevia sobre literatura judaica no jornal O Estado de S. Paulo e publicou uma série sobre o grupo teatral Habima, criado na Rússia, hoje estabelecido em Israel.

Pouco depois, Décio de Almeida Prado deixou a cadeira de crítica teatral na Escola de Arte Dramática (EAD) da USP, e, por indicação dos amigos, ele foi convidado para a vaga.

Começou ali a sua carreira acadêmica, que prosseguiria depois na Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP).

Formou gerações de atores e por fim diretores brasileiros, três dezenas deles também seus orientandos em pós-gradução, como Antonio Araújo e Maria Thaís. 

Até poucos anos antes da morte, já tendo deixado o trabalho formal de orientação, continuava mantendo encontros mais ou menos regulares com grupos de ex-alunos.

Teve divergências pontuais com alguns dos principais estudiosos do teatro brasileiro, como João Roberto Faria, mas se manteve amigo próximo —e editor, sem restrições.

Questionava a excessiva atenção dada ao texto, às peças escritas, nos estudos históricos e na própria produção teatral brasileira.

Mas questionava também o extremismo oposto, que defende o espetáculo, a performance independente, e para isso recusa o texto, quer expulsá-lo do teatro.

Publicou, entre outros livros, "Stanislávski e o Teatro de Arte de Moscou", baseado em sua tese de livre-docência, mas deixa como maior contribuição o próprio catálogo da Perspectiva.

Ela não se restringe ao teatro, pelo contrário, mas é a grande editora brasileira de obras, tanto clássicas como inéditas, sobre o palco e a literatura dramática.

 
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