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Em 'Benito Cereno', Herman Melville revela o que não queremos ver

Memórias de homens do mar servem de esteio para escritor tratar dos embates da nossa percepção

LEDA CARTUM

Benito Cereno

  • Quando R$ 23,90, 152 págs
  • Autor Herman Melville
  • Editora Grua
  • Tradução Bruno Gambarotto

 
“Benito Cereno” é um livro de muitos níveis. Faz sentido, assim, que essa seja uma história que se passa no meio do mar: se o que se revela na superfície esconde outras camadas, um bom navegante está atento e observa os sinais aparentemente insignificantes. 

Quem comanda um navio deve saber interpretar aquilo que indica mudanças na direção do vento ou tempestades se aproximando.

Herman Melville, como fez em “Moby Dick”, acompanha em “Benito Cereno” os homens do mar e o “efeito encantatório” das naus “sob o contraste do oceano vazio”. Porém, nessa novela —que sai em português com ótima tradução de Bruno Gambarotto— a luta não é entre homens e baleias cachalote, mas entre homens e homens. Também e principalmente, a luta é de um homem consigo mesmo, entre sua consciência e sua intuição.

Num primeiro nível, essa é a adaptação de Melville de uma história que realmente ocorreu com o Capitão Amasa Delano, de Massachusetts, e foi relatada em suas memórias. 

Depois de ter aportado seu navio caça-focas em uma ilhota no sul do Chile, o comandante nota uma vela estranha entrando na baía. Um pouco desconfiado, um pouco solícito, Delano decide ir até o outro navio oferecer ajuda.

Naquele dia o mar “parecia inerte, de tono polido como chumbo”. “Sombras presentes, anúncios de mais profundas sombras por vir.” Talvez também por isso tenha sido tão difícil para o comandante americano decifrar os sinais enigmáticos que surgiram um a um, seguidamente, em sua visita ao San Dominick, um vaso mercante espanhol que levava escravos africanos.

Benito Cereno, o capitão, mostra-se um homem esquivo, ambíguo e triste. Ele explica ao visitante que grande parte de sua tripulação, sobretudo os brancos, foi morta por uma epidemia de escorbuto, e que depois disso o navio atravessou vendavais e calmarias, sem rumo. Os negros, espalhados pela embarcação, observam Delano como esfinges: seu comportamento inusitado sugere que algo mais acontece ali, além do relato do comandante espanhol.

Escritor americano Herman Melville, em retrato de 1860, de autoria desconhecida
Escritor americano Herman Melville, em retrato de 1860, de autoria desconhecida - Divulgação

Desçamos mais um nível: essa é uma novela de suspense psicológico. A narração entra e sai da cabeça de Amasa Delano, num ritmo que desenha as espirais da consciência. Enquanto lemos, inquietamo-nos e nos confundimos junto com o capitão diante dos “misteriosos modos de Dom Benito Cereno”.

“Saltando de uma suspeita a outra”, “pressionado por enigmas e agouros”, o personagem trava longos monólogos internos nos quais recapitula os acontecimentos, sente pontadas intuitivas que confirmam o perigo, e logo em seguida convence a si mesmo de sua própria tolice, com recursos eficientes de autossugestão.

Em um nível mais profundo, “Benito Cereno” é um livro sobre a percepção. Sobre nossas ideias prontas que entram em choque com o desconhecido, e as contínuas tentativas da razão de contornar o estranhamento com explicações que soem mais lógicas. O embate entre o que vemos e o que queremos ou esperamos ver.

“Tudo é muito estranho”, pensa o Capitão Delano a certa altura. Acostumado a saber decifrar todos os sinais, ele não admite a possibilidade de não alcançar esses fantasmas que caçoam dele. 

Também nós, navegantes de outros mares, muitas vezes procuramos contornos mentais para lidar com o que não entendemos, para conformar as coisas dentro de conceitos estabelecidos. Mas há sempre algo que se rebela: na calmaria, para quem estiver disposto a ver, sempre se escondem sinais de ondas mais revoltas.

LEDA CARTUM é escritora. Publicou “O Porto” (Iluminuras) e “As Horas do Dia – Pequeno Dicionário Calendário” (7Letras)

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