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Militante desde o Pink Floyd, Roger Waters sempre criticou esquerda e direita

Franco Alves

O que aconteceu no primeiro show no país da turnê de Roger Waters pegou o músico de surpresa. A declaração que deu sobre não saber o que "está acontecendo no Brasil" não significa que ele não tenha ideia do contexto político.

Waters tem uma equipe bem preparada e se informa sobre os locais nos quais se apresenta. Mas seu maior espanto foi ver tanto apoio a Jair Bolsonaro num show que é um protesto contra as posições políticas que o candidato defende.

É difícil dissociar a militância de Waters de sua música. Desde que era um dos líderes do grupo Pink Floyd, suas letras carregam uma mensagem ativista voltada a todos os espectros políticos.

A banda, que emergiu da contracultura dos anos 1960, duvidava tanto da posição dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã quanto da Revolução Cultural de Mao, na China.

Waters apresentou o atual show pela primeira vez na Cidade do México de forma gratuita. Lá, tentou chamar a atenção do então presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, para as 28 mil pessoas desaparecidas na guerra contra o narcotráfico no país.

Na ocasião, o músico ainda pediu justiça pela morte dos 43 estudantes da escola rural de Ayotzinapa, dois dias após o segundo aniversário do massacre. Logo após um discurso, a frase "Renuncia Já" aparecia em toda a extensão do telão. Peña Nieto era filiado ao PRI (Partido Revolucionário Institucional).

Na turnê "Us + Them", há críticas para todos os lados ideológicos. A questão principal, na visão de Waters, é a ascensão de políticas belicistas que separam as pessoas e criam muros em vez de pontes.

"Us and Them" é também o título da sétima música de "The Dark Side of the Moon", uma canção sobre como pessoas são colocadas para matar umas às outras em um tabuleiro de interesses geopolíticos.

Waters não toca somente músicas de sua antiga banda, mas também de seu último disco, "Is this the Life We Really Want?". O álbum é repleto de alusões à situação dos refugiados sírios na Europa e as guerras no Oriente Médio, como na música "Wait for Her".

Este disco é baseado no livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwell. Mas, diferentemente da obra do autor, que é uma crítica à União Soviética, a fábula distópica de Waters se passa no Reino Unido da década de 1973.

Além de Jair Bolsonaro, outros líderes mundiais apareceram no telão de seu show, como o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, de centro-direita, que acabou de impor em seu país um projeto educacional com livros que tratam a mulher como intelectualmente inferior ao homem.

Também aparecem o chanceler austríaco Sebastian Kurz, que fechou sete mesquitas no país; Nigel Farage, um dos líderes do Brexit, e Vladimir Putin, o presidente russo.

Após os nomes desses líderes surgirem, Waters exibe a mensagem "resist unholy aliance between church and state" (resista à aliança profana entre igreja e Estado).

Há uma grande falha na recepção das músicas pelo público. E não é preciso saber inglês, há traduções das letras na internet —mas a polarização política no país leva a casos como o desta terça (9).

Franco Alves é historiador e doutorando na Universidade Federal de Santa Catarina
 

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