Descrição de chapéu Eleições 2018

'Que acalme o coração e faça bom governo', diz Ney Matogrosso sobre Bolsonaro

Cantor lança livro de memórias, diz não temer política sob novo presidente e prepara novo show para 2019

Rafael Gregorio
São Paulo

Ney Matogrosso achava improvável que o povo brasileiro elegesse um presidente elogioso à ditadura e crítico de minorias como Jair Bolsonaro (PSL).

“Mas agora que isso aconteceu, é o seguinte: ele ganhou democraticamente”, diz o artista, que declarou voto em Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno, sobre o presidente eleito.

“Não votei nele, mas desejo que acalme seu coração e faça um bom governo.”

Questionado sobre como se sente diante da retórica do político, que deu declarações homofóbicas, ele diz que não tem medo.

“Estou, sim, prestando atenção a todos os movimentos, mas é muito recente para tirar conclusões. E tem mais: eles passam, eles vão passar. É natural a qualquer governo.”

Após décadas de franqueza, de encontro a certo recato de seus contemporâneos na MPB, Ney, 77, não recua diante de temas controversos, como política, religião, arte e sexo.

Este último foi assunto frequente desde que tomou o Brasil com sua figura andrógina —ele prefere “híbrida”— à frente do Secos & Molhados.

Após chocar a tradicional família brasileira —e encantar suas crianças, que viam nele um super-herói maquiado, sem malícia, como revê no livro—, como é chegar a 2018 em um mundo mais careta?

“Não imaginava nem chegar a 2018! Mas achava que teríamos mais liberdade. Mesmo na ditadura, eu ia à praia e via aeromoças se trocarem, vestirem biquíni; não tinha choques, era algo natural. Interessante como a gente caminhou para ser livre, mas ao redor veio um conservadorismo.”

Para ele, os eleitores de Bolsonaro se arrependeriam caso o político concretizasse sua retórica. “São pessoas que votaram insensatamente numa hipótese, não sabem como era horrível viver em uma ditadura e não ter direito a nada.”

Os 45 anos de trajetória profissional e a formação pessoal que os precederam são revistos em “Ney Matogrosso - Vira-Lata de Raça”, que chega às livrarias em novembro.

“Não é uma biografia, mas um livro de memórias, na primeira pessoa do singular.”

Ney diz que a obra nasceu da proposta de transcrever as principais entrevistas que concedeu desde 1973, quando despontou na MPB com o grupo Secos & Molhados, até a turnê mais recente, "Atento aos Sinais", que ficou cinco anos em cartaz, passando por marcos como a parceria artística e o romance com Cazuza (1958-1990).

Sobreveio, contudo, a sugestão do poeta e amigo Ramon Nunes Mello de basear o livro em relatos. A partir dali, rememoraram por um ano a formação intelectual e artística do cantor, atravessada por teatro, música e artes visuais.

Batizado com trecho de letra de uma música de Rita Lee e seu filho Beto, o livro reúne 70 fotos de diferentes épocas, além de discografia completa.

Também resgata bastidores profissionais, como as experiências no teatro, no cinema e na direção, seara na qual conduziu espetáculos de nomes como Chico Buarque e Ana Cañas, além do próprio Cazuza, no marcante "O Tempo Não Para".

Da infância vieram os primeiros contatos com as artes, ouvindo a mãe cantar, em casa, como as divas do rádio.

De uma visita com ela à Rádio Nacional, no Rio, ficou na memória contato com a cantora Elvira Pagã (1920-2003).

“Fiquei pirado com aquela figura sensual em peles de onça. Penso que acabei reproduzindo essa imagem ao longo da minha carreira”, escreve.

Também fizeram a cabeça do infante Ney de Souza Pereira as preferências do avô argentino e da avó paraguaia, além de artistas dos anos 1950, como a atriz Martine Carol e o cantor e ator Elvis Presley.

A obra é farta em intimidades, como a conflituosa relação de Ney com seu pai, um militar da Aeronáutica, à qual o próprio cantor serviu quando saiu da casa dos pais.

Também há revelações surpreendentes, como um relato sobre uma possível filha. 

Após a saída de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, escreve o cantor, uma jovem procurou a mãe dele para apresentá-la a um bebê. Ney conta que sua mãe teria achado a menina muito parecida e se oferecido para ficar com ela, mas a jovem se assustou com a ideia e sumiu.

Não foi a última vez em que Ney, sem filhos nem vontade de tê-los, foi confrontado com uma possível paternidade. 

“Ao longo da minha vida fiz três exames de DNA de pessoas que diziam ser minhas filhas. Mas deram negativo.”

Chama a atenção o alto nível de detalhamento das lembranças. O cantor diz que não se baseou em diários ou anotações, mas confiou na própria memória e se serviu de alguma pesquisa de Mello.

A volta ao passado, segundo o artista, foi um processo tranquilo. “Eu estou acostumado a expor meu pensamento; são coisas que venho falando a vida inteira”, ele diz.

O livro terá lançamentos em São Paulo, no dia 8 de novembro, e no Rio, no dia 13. Depois, a ideia de Ney é se voltar à música.

“Já estou com um repertório bem adiantado”, ele diz, sobre um show que pretende lançar em fevereiro com canções de nomes como Milton Nascimento, Chico Buarque e Sergio Sampaio (1947-1994).

Vira-Lata de Raça

  • Quando Lançamento: 8/11, às 19h, na Livraria Saraiva do shopping Pátio Paulista (r. Treze de Maio, 1.947), e 13/11, às 19h, na Livraria Travessa do shopping Leblon (av. Afrânio de Melo Franco, 290)
  • Autor Ney Matogrosso. Pesquisa e organização: Ramon Nunes Mello
  • Editora Tordesilhas. R$ 44,90 (288 págs.)

 

O que Ney Matogrosso pensa sobre:

ELEIÇÕES
[No primeiro turno,] votei no Ciro [Gomes]. Porque era o único que, pelas pesquisas, derrotaria os outros dois candidatos. No segundo turno, fiz o que tinha que fazer. Agora que isso aconteceu, é o seguinte: Bolsonaro ganhou democraticamente. Vamos ver, prestar atenção. Acho também que muita coisa que ele falou, vai ter que abrir mão e recuar, porque agora ele é o presidente do Brasil, vai governar o povo inteiro, não pode representar uma facção, uma parcela. Se colocar uma posição muito radical, vai levantar uma coisa muito radical contra ele também, e aí teremos uma guerra civil; não vai ser conveniente para ninguém.

MILITARIZAÇÃO
É muito louco, porque foi a maioria do povo que aceitou a militarização. Se a coisa realmente tomar um rumo radical, muitas dessas pessoas se arrependerão, porque não viveram isso como nós vivemos, e era horrível viver daquela maneira. Você não tinha direitos a nada, andava na rua e era parado três, quatro vezes por dia para ser revistado. Eu duvido que qualquer pessoa que votou em Bolsonaro vai ficar feliz passando por isso. Elas votaram insensatamente numa teoria, numa hipótese. Não sabem do que se trata na verdade. Espero que não chegue a isso. Eu não votei nele, mas não desejo o mal nem tenho um sentimento de ódio em mim. Nada. Não desejo que ele faça um mal governo, desejo que ele acalme seu coração e faça um bom governo. Não é a maneira certa de pensar? Desejei o mesmo quando Lula venceu, quando Dilma venceu. E digo mais: se ele conseguir realmente colocar o Brasil no patamar que idealiza, será muito bom para nós.

PREOCUPAÇÕES
Cercear as liberdades me preocupa. Não a minha, mas a das pessoas. Não acho que um governo deva determinar como as pessoas vão viver suas vidas. E a coisa da natureza também me deixa muito preocupado. Não querer enxergar os sinais do aquecimento global é uma ingenuidade; está diante dos nossos olhos. Mas também não sei se dá tempo mais de reverter. Fico com uma desconfiança quando ouço notícias sobre cientistas tentando ocupar Marte. Por que estão pensando em ocupar Marte? Será que já estão desistindo da Terra porque não tem mais volta? [Meio ambiente e agricultura] deveriam ser uma luta comum, mas o discurso está muito contaminado pela ideia de locomotiva da economia brasileira. Quando eu saí de onde hoje é o Mato Grosso do Sul, do ônibus você via um cerrado muito alto que se transformando numa floresta mais alta. Agora você atravessa aquilo e é tudo soja. Tirar árvore e plantar soja vai provocar alguma resposta da natureza. Tudo bem, está garantindo uma estabilidade econômica, dinheiro, mas tem esse outro lado: a natureza não é inerte. Ela reage. Fico muito assustado com isso.

POSICIONAMENTO DO UNIVERSO LGBT
Muita gente acha que “é melhor ter um filho morto do que gay”, não é exclusividade dele. Sempre ouvi isso. Acho que contra a natureza não há resposta, ninguém decide nascer desse ou daquele jeito, não adianta querer impor regras. Ninguém vira nada por influência de ninguém. Especialmente na sexualidade, algumas pessoas vão continuar nascendo gays. Você pode até impedir a explicitação disso, mas o fato em si não será nunca controlado.

LIBERDADE DE IMPRENSA
Fico apreensivo, mas acho que ele nem pode ir contra a imprensa, ela vai continuar livre; você não fecha um jornal assim, do nada. E tem um outro aspecto: eles virão e eles irão. Não estou desejando nada, é natural, falo isso de qualquer governo em qualquer lugar do mundo. Eu sou uma pessoa que abraça a liberdade de expressão. Eles passam, eles vão passar. 

CARETICE
Sim, acho que [o Brasil] está mais careta hoje. Porque agora há muita discrição, você não pode falar certas coisas. Antigamente, embora a gente vivesse uma ditadura, havia uma coisa mais livre entre as pessoas. Concordo com as lutas identitárias, porque há muito desrespeito. Os negros são muito maltratados, os pobres, as mulheres são espancadas. Mas resulta sendo uma coisa restritiva, um politicamente correto que coloca ordens de uma forma radical. Não gosto de pensamentos radicais. Eu gosto da coisa mais solta. Mas infelizmente é necessário.

VELOCIDADE
Agora tem essa coisa da internet, que modificou todo o comportamento. Nossas liberdades, que antes eram vivenciadas, agora são baseadas nessa exposição. Essa vida via internet Não me interessa, viu? Gosto de andar na rua, de conhecer de verdade. Até a percepção do tempo mudou. Antigamente se vivia mais devagar, tudo era feito mais calmamente. Agora é tudo muito mais urgente, tudo acelerado. Mas eu me preservo muito disso tudo. Claro, no trabalho eu tenho que estar dentro desse mundo, mas na minha vida eu faço da minha maneira. Demorei dez anos para ter um celular, por exemplo, porque não queria ser achado em qualquer lugar que eu estivesse. E só uso o Instagram.

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