Descrição de chapéu Crítica Artes Cênicas

Repetição de autor francês ganha ares de enfado em montagem de Antunes Filho

Diretor brasileiro encena 'Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse', de Jean-Luc Lagarce

Paulo Bio de Toledo

Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom. e feriados, às 18h. Até 16/12
  • Onde Sesc Consolação - Teatro Anchieta, r. Dr. Vila Nova, 245
  • Preço R$ 12 a R$ 40
  • Classificação 14 anos

O dramaturgo francês Jean-Luc Lagarce faz da melancolia e da resignação o eixo de “Eu Estava em Minha Casa e Esperava que a Chuva Chegasse”, escrita em 1994 e montada agora por Antunes Filho

Logo de início sabemos do regresso de um filho outrora expulso de casa. Ao que tudo indica, mãe e irmãs viveram paralisadas numa longa espera desde a partida do menino. Mas o retorno tão ansiado não traz nada de novo, só mais ressentimento e mais angústia.

O texto é praticamente uma coleção de monólogos. São fluxos de reflexão subjetiva que veem os acontecimentos de forma contraditória, tornando impossível saber o que ocorreu naquela família. Tudo gira em falso. As personagens falam, mas não agem, não saem do lugar. A sensação é de uma repetição sem fim e de seres que vão apodrecendo.

A encenação de Antunes mergulha neste universo. Para dar conta da abstração e dos vazios do texto, o diretor ancora as falas em um ambiente concreto inventado por ele. Cria fragmentos de passado para as personagens, inventa gestos cheios de história. De modo que a lírica das palavras ganha dimensão teatral.

Apesar disso, a cena reforça a estagnação da peça. O cenário com dezenas de cadeiras desarranjadas parece projetar outro tempo, de multidão, alegria e esperança. Mas agora é somente ruína do que foi. Ali as velhas e as crianças reproduzem enigmáticos ritos cotidianos que parecem já ter perdido o seu significado.

A montagem apresenta um mundo estático, como a iluminação. Vemos um quadro que reitera a si mesmo, assim como a lírica circular do texto de Lagarce. Texto e cena dizem juntos: “A esperança é ilusória, não há superação à vista”.

Contudo, a paralisia também se impregna na teatralidade. O espetáculo se desenvolve penosamente. As cenas terminam sempre do mesmo modo que começam e vão se cristalizando em monotonia.

O rigor vocal das atrizes —antiga marca do trabalho de Antunes Filho— fica preso em inflexões pré-fabricadas. A técnica se sobrepõe ao presente da cena que vai, por sua vez, decaindo em mesmice.

O universo desencantado e repetitivo de Lagarce ganha um impulso teatral com a montagem de Antunes. Mas a força de cena logo perde vigor e se transforma em uma cansativa repetição sobre uma vida de falsas esperanças.

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