Roger Waters mergulha em política e se esconde em banda cover de Pink Floyd

Músico chega ao Brasil para oito shows com turnê 'Us + Them', cheia de efeitos visuais

Roger Waters se apresenta no Hyde Park, em Londres, durante o festival British Summer Time   Simone Joyner-6.jul.18/Getty Images

Londres

Poucos artistas sabem montar um espetáculo musical e visual como Roger Waters, 75. Com quase quatro décadas de experiência em apresentações monumentais, o ex-líder e força criativa dos anos mais bem-sucedidos do Pink Floyd —ao lado de David Gilmour— volta a demonstrar isso com enorme competência na turnê intitulada “Us + Them”. Ela chega agora ao Brasil para oito shows.

Poucos artistas misturam tão profundamente crítica política e espetáculo musical quanto Waters. Sua apresentação intercala a grandiosidade musical do Floyd com ataques a Donald Trump e aos “porcos que dominam o mundo”, enquanto pede apoio a refugiados, à Palestina e o fim do antissemitismo.

A Folha assistiu à apresentação de Waters no Hyde Park, em Londres, em julho, como atração principal da primeira noite do festival British Summer Time —num dia de sol e calor surpreendentes para a capital inglesa. “Us + Them” são dois shows em um.

Para além da divisão do repertório em dois, com um intervalo, trata-se de uma apresentação musical grandiosa e impecável alternada (e muitas vezes misturada) com um discurso político forte, mas musicalmente mais modesto.

Mesmo com uma atmosfera de show aberto e com luz do sol durante quase toda a apresentação em Londres, algo diferente do que se vê em arenas e estádios fechados como vai ser no Brasil, o show é um grande espetáculo.

São 20 canções em mais de duas horas, num repertório quase inteiramente formado por grandes clássicos do Pink Floyd tocados de forma perfeita. Algumas das músicas mais importantes da carreira da banda, como “Time”, “The Great Gig in the Sky”, “Dogs”, “Comfortably Numb” e “Wish You Were Here” são calibradas no ponto certo para encantar e emocionar a plateia.

Além disso, há trocas de figurino, atuação de figurantes, projeção de imagens extraordinárias em grandes telões e dança de lasers acompanhando as canções. Ainda vemos a transformação do palco em uma réplica da usina de Battersea (que aparece na capa do álbum “Animals”) e o indefectível porco voador que passou a ser um dos símbolos do tom político de forte crítica ao presidente dos EUA. Mas, pelo menos na parte musical, o personagem principal do show demora para aparecer de verdade.

Apesar de ser o protagonista, Waters parece se esconder no palco desde o começo da apresentação. Com uma atuação coadjuvante em grande parte do show, ele se encolhe tocando baixo enquanto o resto da sua competente banda carrega a apresentação nas costas. 

Logo no início, com “Breathe” e “One of These Days”, chega a ser difícil identificar a presença de Waters (mesmo que o baixo seja a força condutora da segunda). Desde o começo do show, são os guitarristas Jonathan Wilson e Dave Kilminster que acabam se destacando mais, tanto nos vocais quanto nos solos (e as músicas de Pink Floyd têm muitos e longos solos).

Tudo soa fantástico e tem grande potencial de emocionar. Mas não deixa de levar a alguns momentos em que a sensação é de estar vendo uma banda cover de Pink Floyd acompanhada do seu lendário líder. Um cover excelente, mas, ainda assim, sem a força do original.

Waters se solta mais ao longo do show, mas parece se empolgar de verdade com o lado político da apresentação, com discursos e atuações que têm marcado o tom da sua carreira nas últimas décadas. 

Músicas e projeções de tom político, quase sempre com críticas ao governo dos EUA e às corporações, são os momentos em que ele realmente toma conta do show.

Sua atuação pessoal é mais marcante ainda nas poucas músicas do seu repertório solo, especialmente o trio “Déjà Vu”, “The Last Refugee” e “Picture That”, todas do disco mais recente (“Is This the Life We Really Want?”) e tocadas em sequência. Neste ponto ele canta mais animado, caminha pelo palco, interage mais com o público.

O contraste é ainda mais marcante por serem músicas mais intimistas e menos apoteóticas do que as do Floyd.

Isso evidencia a divisão da apresentação entre o caráter político e social, mas com música mais modesta, da carreira recente de Waters, com a grandiosidade sonora do Floyd.

No fim, a mistura funciona. Superada a relativa frustração de ver um nome tão importante da música um tanto apagado em parte da apresentação, é possível mergulhar no espetáculo musical e visual enquanto Waters utiliza seu show monumental para dar mais visibilidade a seu discurso político.


Turnê Us + Them
São Paulo (9 e 10), no Allianz Parque; Brasília (13), no Mané Garrincha; Salvador (17), na Fonte Nova; Belo Horizonte (21), no Mineirão; Rio (24), no Maracanã; Curitiba (27), no Couto Pereira; e Porto Alegre (30), no Beira-Rio. Ing.: a partir de R$ 220 em premier.ticketsforfun.com.br 

 

Repertório no Hyde Park

1- (Speak to Me) Breathe

2 - One of These Days

3 - Time

4 - The Great Gig in the Sky

5 - Welcome to the Machine

6 - Déjà Vu

7 - The Last Refugee

8 - Picture That

9 - Wish You Were Here

10 - The Happiest Days of Our Lives

11 - Another Brick in the Wall Part 2

12 - Another Brick in the Wall Part 3

Parte 2

13 - Dogs

14 - Pigs (Three Different Ones)

15 - Money

16 - Us and Them

17 - Smell the Roses

18 - Brain Damage

19 - Eclipse

Bis:

20 - Comfortably Numb

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