Descrição de chapéu Eleições 2018

Só 6 dos 20 artistas mais populares do Brasil declaram preferência na eleição

Em meio a polarização e ataques, campeões do YouTube silenciam sobre quem apoiam no 2º turno

Daniel Mariani João Paulo Martins Rafael Gregorio
São Paulo

Medo e silêncio dão o tom da relação entre os artistas mais populares do Brasil e a eleição para presidente.

Apenas 6 dos 20 nomes que, segundo a plataforma de vídeos YouTube, são os mais ouvidos do país declararam apoio a um candidato no segundo turno do pleito, neste domingo (28): cinco a favor de Jair Bolsonaro (PSL), que lidera as pesquisas, e um contra o candidato.

Os apoios se deram na internet. Bolsonaro foi endossado pela dupla Zé Neto e Cristiano, por exemplo, que lidera o ranking do YouTube.

 

Em um vídeo publicado no YouTube, Zé Neto manda “um abraço ao Eduardo Bolsonaro”, filho do candidato, “um cara fenomenal, conhecedor de armas”, e entoou o slogan “é melhor ‘Jair’ se acostumando”.

Em nono lugar, Gusttavo Lima foi outro a apoiar o candidato do PSL. Em fevereiro, ele publicou um vídeo em uma rede social fazendo aula de tiro nos Estados Unidos. No texto, o cantor defendia a revogação do Estatuto do Desarmamento e citava Bolsonaro.

Ambos preferiram não repetir o apoio à Folha, assim como os colegas no top 20.

Especialistas creditam o receio em declarar voto a uma polarização acima do comum e ao temor em desagradar contratantes. Também pesa a possibilidade de reações no meio digital, em que boicotes e ofensas tornaram-se comuns.

Foi assim com Marília Mendonça. Há um mês, após aderir ao #EleNão, a sertaneja virou alvo da ira de apoiadores de Bolsonaro. Ela acabou apagando o vídeo e, em outro post, disse que familiares foram ameaçados. “Deixo aqui o meu profundo silêncio em qualquer questão política.”

Marília teve queda de cerca de 13% no YouTube desde então, segundo o Núcleo de Inteligência da Folha. Mas não é possível associar a redução só à reação bolsonarista, pois oscilações assim são frequentes. Ainda hoje, porém, a cantora é atacada em seus vídeos por apoiadores do capitão reformado.

Além da truculência digital, está em jogo muito dinheiro. Segundo estimativas, a sertaneja tem hoje o terceiro maior cachê do Brasil, de R$ 350 mil por show. Com os contratos publicitários, a receita chegaria a R$ 10 milhões ao mês.

A aversão a opiniões políticas se deve também ao fato de os picos de popularidade serem, em regra, efêmeros, diz o advogado Thiago Endrigo. Ele é sócio da Elemess Music n’ Services, empresa de gestão de carreiras que tem entre seus clientes nomes como Pitty e marcas como Skol Music.

“O cara que chegou ao topo do ranking não arrisca porque não sabe se está surfando uma onda de dois dias, dois meses ou dois anos”, afirma.

Exemplo é MC Bin Laden, que em 2015 virou febre com o funk “Tá Tranquilo, Tá Favorável”, mas sumiu das paradas.

As exceções, diz Thiago, são artistas cujas propostas por natureza tangenciam temas polêmicos, como a sexualidade, no caso de Pabllo Vittar, ou os de carreiras consolidadas.

É o caso de Mano Brown, que apoia Fernando Haddad, e Zezé di Camargo, simpático a Bolsonaro.

“Quem está no top 20 normalmente são artistas recentes. Ao não declararem voto, fazem gestão de carreira; acho compreensível”, pondera Felipe Trotta, professor da Universidade Federal Fluminense.

Ele reforça que esta eleição é “totalmente atípica”. “Um candidato foi ferido, outro foi impedido de concorrer por estar preso, há denúncias sobre uso ilegal de redes sociais e defensores do autoritarismo.”

Segundo Trotta, em 2014, já havia danos em se posicionar, mas a divergência era de ideias. “Agora”, completa, “pessoas estão sendo agredidas, mortas, achincalhadas; uma repórter da Folha é ameaçada.”

Pesquisadora do sucesso de artistas sertanejos e professora de comunicação na Universidade Federal de Minas Gerais, Vera Regina Veiga França também considera este pleito incomum, mas contrapõe: "Tornar-se uma personalidade pública implica responsabilidades. Para os fãs, estão revelando fraqueza e temor".

O ineditismo da polarização em 2018 transparece nas palavras do representante de um dos nomes no top 20, que prefere não ser identificado.

“Agradeço muito o interesse, porém a gente está num momento no país que é muito delicado. Muito mesmo.”

Anitta, hoje no 22º lugar no YouTube, foi outra a experimentar a fúria do eleitorado. Após semanas relutando em se manifestar, ela aderiu ao #EleNão há cerca de um mês.

Desde então, passou a ser atacada. O vídeo em que rechaça Bolsonaro teve centenas de milhares de comentários, a maioria ofensivos, a ponto de a cantora desabilitar as interações na publicação.

A hostilidade resvalou na Renault, cuja campanha mais recente tem Anitta como garota-propaganda. O vídeo da publicidade tem 2.500 curtidas, contra 102 mil descurtidas.

Nos comentários, afirmações como “vai induzir crianças a serem vadias no inferno! Praga, profana, nefasta”.

Também passaram a circular relatos de que shows têm sido esvaziados desde então. Nem a cantora nem a Renault quiseram comentar o caso.

Para os artistas atingidos, é possível mudar de assunto —por exemplo, lançando um novo videoclipe, como fez Marília Mendonça com a música “Bye Bye (Todos os Cantos)”.

Para as marcas o dano é maior, diz Thiago, da Elemess. Também porque a publicidade migra da TV, onde as medidas eram baseadas só no ibope, para a internet, onde recursos como curtidas e menções detalham o desempenho.

Fora da rede, são raros confrontos com artistas por opinião política. Ainda assim, a violência é medo constante, dizem as cantoras do Anavitória.

Hoje a 45ª atração mais ouvida do país no YouTube, elas são exceção entre artistas de ponta: há meses defendem Haddad em shows e na internet como recusa a Bolsonaro.

Vitória Falcão e Ana Clara Caetano do duo Anavitória, manifestam-se contra Bolsonaro durante show
Vitória Falcão e Ana Clara Caetano do duo Anavitória, manifestam-se contra Bolsonaro durante show - Breno Galtier/Divulgação

“Se tu falar, é uma chuva de ódio, pessoas dizem que vão te agredir ou até te matar. É um momento de muito medo”, afirma Vitória Falcão.

“Entendo quem prefere não se posicionar, mas tem coisas muito graves em jogo”, diz Rodrigo Gorky, produtor de Pabllo Vittar. Para ele, os artistas não deveriam se calar “em um momento tão delicado”.
Trotta, da UFF, ressalva que pode-se evitar manifestações eleitorais, mas não a política. 

“Até um hit como ‘Camaro Amarelo’, da dupla Munhoz & Mariano, que liderou o ranking, incorpora valores políticos: mérito individual, consumo, assimetrias de gênero. Música sempre tem ideologia.”

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