Descrição de chapéu Crítica

'Um Dia' se insere no rol de filmes que lidam com o mal-estar contemporâneo

Longa húngaro nos fazer acreditar que é assim em todo o mundo

Sérgio Alpendre

Um Dia

  • Quando Estreia nesta quinta (11/10)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Zsófia Szamosi, Leó Füredi, Ambrus Barcza
  • Produção Edina Kenesei e Ági Pataki
  • Direção Zsófia Szilágyi

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Primeiro longa de ficção da diretora húngara Zsófia Szilágyi, "Um Dia", participante da Semana da Crítica do último Festival de Cannes, começa com uma mulher, Anna (Zsófia Szamosi), que se maquia no espelho. O barulho de crianças e sua feição nos informam que sua vida pode ser tudo menos sossegada.

Ela suspeita que o marido a trai com uma colega de trabalho. No bar, a tal colega diz que houve atração mútua, mas não chegaram a consumar o adultério. Para Anna, isso tende a significar a falência do casamento.

Depois descobrimos que Anna tem três filhos, vive cheia de afazeres e mal tem tempo de resolver seus problemas. O sentimento constante é de que está dentro de uma panela de pressão prestes a explodir.

"Um Dia", assim, insere-se no enorme rol de filmes que lidam com o mal-estar contemporâneo, mas de uma forma mais intimista, familiar, como se o núcleo do lar fosse um microcosmo de um mundo fraturado.

O marido tem dívidas, a ameaça de traição não se desfaz, e os filhos estão na fase da diversão com barulho máximo. Nesse cenário, esperamos que a qualquer momento uma crise violenta irá acontecer com Anna.

A câmera de Szilágyi é um pouco descuidada. Essa aversão ao tripé que comanda o fazer cinematográfico nos últimos anos faz com que por vezes a câmera balance sem motivo. É pouco perto de um Paul Greengrass da vida, mas parece inadequado diante da possibilidade de explosão que vemos.

Há, decerto, algumas observações interessantes sobre o sufocamento que a sociedade atual provoca nas pessoas. Mas o filme nunca avança muito além disso, preferindo o terreno do "quase", da ameaça constante e da falta de perspectivas de resolução.

É emblemático, por exemplo, ver a protagonista se esconder dos problemas. O enfado produz anestesiamento. O cansaço leva à resignação. Sua vida é um porre e não há nada que ela possa fazer.

Há um pouco mais de sensibilidade que nos filmes de outros arautos do mal-estar contemporâneo - Michael Haneke, Ruben Ostlund ou Ulrich Seidl, por exemplo. Talvez porque Szilágyi, ao contrário dos diretores citados, concentra seu trabalho no brilho da atriz principal e não numa suposta superioridade de observador onisciente.

Mas, no fundo, "Um Dia" não vai muito mais além da habitual radiografia do cotidiano espiritualmente enclausurado de nossos dias. Se há um valor no filme, além da interpretação de Szamosi, é fazer-nos acreditar que é assim em todo o mundo.

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