Bancada de artistas na Câmara tem ex-ator pornô, cantores cristãos e baterista

Dos 513 deputados federais eleito, 12 têm profissões ligadas a áreas culturais e artísticas

Eduardo Moura
São Paulo

Dos 513 deputados eleitos para a próxima legislatura na Câmara, 12 têm profissões e atuações ligadas às áreas culturais e artísticas.

O levantamento da Folha tem base em informações da Secretaria-Geral da Câmara e do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

Num mar de advogados, administradores, médicos e professores, a Câmara terá, a partir de 2019, dois atores, cinco escritores, um arquiteto e quatro músicos. Além disso, há o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero.

Na última quarta (28), a equipe de transição da Presidência anunciou que a pasta que Calero comandou foi incorporada ao ministério da Cidadania, a ser comandado por Osmar Terra (MDB).

De volta à Câmara, entre os músicos eleitos, há Jandira Feghali (PC do B-RJ), que, além de médica, é baterista. Ela começou a tocar com o irmão, Ricardo, do Roupa Nova.
 

Lauriete (PR-ES) e o Eros Biondini (Pros-MG) são cantores cristãos. A capixaba é mulher do senador Magno Malta (PR-ES), membro da bancada evangélica, que não se reelegeu. 

Um dos apoiadores mais ativos de Jair Bolsonaro, Malta era cotado para assumir a pasta da Cidadania

O cantor Eros Biondini, formado em medicina veterinária, é ligado à Renovação Carismática Católica e à comunidade Canção Nova, dona do Sistema Canção Nova de Comunicação —que engloba rádio, site, canal de televisão, livraria, gravadora e editora.

Igor Kannario (PHS-BA) é um cantor de pagode com grande expressão na periferia de Salvador. Conhecido como o “príncipe do gueto”, atualmente é vereador da capital.

O deputado eleito já afirmou ser favorável à legalização da maconha, apesar de pertencer a uma coligação estadual que apoiou Bolsonaro. 

Os dois atores são o palhaço Tiririca (PR-SP), que em 2019 inicia seu terceiro mandato, e Alexandre Frota (PSL-SP), também empresário, que participou de novelas, reality shows e filmes, convencionais e pornográficos. 

Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos fundadores do MBL,  e autor do livro “Quem É esse Moleque para Estar na Folha?” (Simonsen), que reúne as colunas que escreveu no jornal, declarou-se escritor. Assim como Jean Wyllys (PSOL-RJ), também professor com mestrado em letras e linguística pela UFBA e ex-BBB. Ele é autor de quatro livros: “Aflitos” (Fundação Casa de Jorge Amado), “Ainda Lembro” (Globo), “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (Giostri) e “Tempo Bom Tempo Ruim” (Companhia das Letras).

O time de escritores tem ainda Cleber Verde (PRB-MA) —que declarou ser servidor público, professor e vendedor— e Roberto de Lucena (Podemos-SP), que também é pastor evangélico e conferencista.

Marlon Santos (PDT-RS), conhecido por ser médium e fazer cirurgias espirituais, é atualmente presidente da Assembleia do Rio Grande do Sul. Em sua página no Facebook, ele se declara “produtor rural, escritor, consultor de marketing e designer de joias”.

Joaquim Passarinho (PSD-PA) é o único arquiteto da casa. Ele é sobrinho do militar e ex-governador do Pará Jarbas Passarinho, que foi ministro na ditadura e no governo Collor.

“A pauta [da cultura] não é relevante nos governos e em geral não tem muitos protagonistas que a coloquem como relevante”, diz Feghali, que foi a primeira presidente da Comissão de Cultura na Câmara, que, até 2013, estava aglutinada com Educação numa mesma comissão parlamentar.

Sobre a baixa representatividade da classe artística e cultural no Congresso, Frota diz que “poucos da classe têm a coragem de encarar uma urna, o povo”.

“Vejo pessoas preocupadas em fazer hashtags, quando deveriam concorrer numa eleição e passar a lutar pela classe, melhorar nossa cultura, nossas leis, buscar novos caminhos”, diz o ator e empresário.

Esses deputados formam um grupo heterogêneo, mas em um ponto concordam: a defesa da cultura no Congresso não precisa ser feita apenas por deputados com profissões artísticas e culturais.

“Cultura não é uma questão só dos artistas. É algo muito mais amplo. A pauta da cultura não tem muitos protagonistas aqui [na Câmara], mas, em geral, a gente consegue aprovar [pautas de cultura] com ampla maioria. O problema é puxar a pauta, dar relevância a ela”, diz Feghali.

“Não necessariamente para representar determinado setor você precisa estar ligado a ele”, diz Kataguiri.

O cofundador do MBL dá o exemplo de Marcelo Calero (PPS-RJ), que é advogado e diplomata. “Muito provavelmente vai ser uma referência para as pautas culturais”, diz sobre o futuro colega.

Calero comandou o MinC até 2016, quando pediu demissão e acusou o ex-ministro Geddel Vieira Lima de pressionar o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) a aprovar a construção de um imóvel em área tombada de Salvador. Antes, foi secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro.

“Nos debates sobre a Lei Rouanet —e até no caso da CPI—, o que mais havia era desinformação. Informações muito superficiais e enviesadas. A política cultural como um todo tem dificuldade de ser compreendida”, diz Calero.

Hoje, na Câmara, existe a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura, criada em dezembro do ano passado e presidida por Luciana Santos (PC do B-PE). Conta com 180 signatários na Câmara, vindos dos mais diversos partidos, do PSOL ao DEM.

Com uma composição heterogênea, é difícil que a frente parlamentar alcance o mesmo grau de coesão da bancada evangélica, por exemplo.

“Neste momento, nossa principal tarefa é reativar a pauta e nossa frente parlamentar de cultura, fazer com que a comissão de cultura seja ativa e não seja extinta”, diz Feghali.

Bancada não é sinônimo de frente parlamentar. Enquanto o primeiro é uma denominação informal que se dá a um grupo de parlamentares que se organiza em prol de um tema, o segundo é uma formalização, que muitas vezes só fica no papel.

“Temos um número significativo de deputados que têm preocupação com a cultura, mas para ser chamada de bancada, precisaria ter uma organização maior”, diz Kataguiri.

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