Descrição de chapéu Moda

Estilista teve epifania sobre corpo após ser roubado no Rio e andar seminu

'Entendi que a vulgaridade é um conceito mental', diz Paul Surridge, da grife Roberto Cavalli; ele quer renovar o sexy

Modelo se apresenta no desfile da Roberto Cavalli na Semana de Moda de Milão Miguel Medina/AFP

Pedro Diniz
Milão

Um dos lugares-comuns sobre a moda é que comprimentos, cores e proporções variam em ciclos sazonais, vêm e vão girando em torno do próprio umbigo, esteja ele escondido ou despido de panos. Mas, independentemente das mudanças, é consenso que as pessoas se cobrem de tendências com o propósito de atrair olhares, uma ideia que essa indústria estereotipou de "sexy".

Estar na moda, segundo a moda, é estar sexy, e isso pode significar cobrir o corpo inteiro de moletom, fruto da virada urbana das passarelas, abrir uma fenda na saia lápis ou estampar o look com padrões gráficos da pele animal. O estilista da grife Roberto Cavalli, Paul Surridge, 43, é de uma geração de designers que tenta equacionar o sexy para além desse vaivém da costura.

Pouca gente entendeu quando, ao anunciar a aposentadoria em 2016, o fundador da imagem selvagem do estilo italiano escolheu como sucessor um inglês amante da alfaiataria, de tesoura testada nas divisões masculinas de grifes como Prada, Calvin Klein e Zegna.

Nesses quase dois anos sentado na chefia criativa, parece claro que Surridge não se propõe a soar discípulo de Cavalli, mas, sim, a conduzir uma renovação da sensualidade feminina.

Em seu último desfile, na Semana de Milão, ele combinou tops drapeados a shorts de ciclista, alguns sobrepostos a jaquetas desestruturadas e paletós malhados. Apostou também em fendas na barriga, saias ora justas, ora volumosas, só um ombro descoberto, uma manga caída, meia cintura exposta.

Na busca pelo título de "pioneiro do novo sexy", como definiu seu trabalho em entrevista na sede da marca, ele embaralhou elementos da sedução para culturas distintas.

"Até porque, vestir uma mulher é entender quanta sedução e quanta projeção do corpo ela está disposta a assumir. Shorts podem ser sensuais nos Estados Unidos ou em Londres, mas não na China, por exemplo. Ao mesmo tempo, um decote tem um significado lascivo para a Ásia, mas não no Ocidente", explica Surridge.

Suas criações atinam para o fato de que o mundo encaretou pós-1990, "uma época de redução", na qual o minimalismo dos cortes simplistas e o monocromatismo dominaram a criação.

Agora, como se respondesse à onda conservadora que toma a geopolítica mundial, o estilista acredita que a moda tateia novas ideias de sensualidade para além da pele aparente, um estilo batizado por ele de "conservadorismo pervertido".

Na prática, isso significa apostar em estruturas de smoking, mas também em minissaias, acentuar curvas, mas balanceá-las com tecidos leves, como o jérsei. A pele é exposta, mas coberta com rigor geométrico, sem "animal prints" exagerados, brilhos despropositados e cortes voluptuosos.

Ele ainda pincela detalhes esportivos às roupas e aos calçados, porque "não pode fechar os olhos para o que os clientes procuram nas lojas", mas o faz sem descaracterizar seu objeto de estudo, que é a pele.

E se o leitor estiver se perguntando como um inglês educado para reproduzir códigos da sóbria costura britânica conseguiu se desvincular da raízes e adotar a carne como principal forma de expressão do estilo, encontrará a resposta numa realidade próxima, a da violência carioca.

Em 2001, Surridge, então com 26 anos, dormiu na areia da praia de Ipanema e teve todos os pertences roubados. Viu-se obrigado a andar seminu pelo asfalto carioca, só de sunga, e teve uma espécie de epifania sobre o preconceito que a moda tem sobre o corpo alheio.

"Num primeiro momento me senti extremamente violentado com aquela situação. Enquanto andava, percebi que ninguém olhava para mim e que o problema era minha falta de confiança sobre o meu próprio corpo", conta. "Não há outro lugar do mundo onde a exposição do corpo é tão progressista, tão libertária, quanto no Rio."

A paixão pela cidade o trouxe de volta nove vezes e ele chegou a morar três meses na capital fluminense, no mesmo bairro que por algumas horas lhe tirou parte da dignidade.

"Foi a partir dessa experiência que entendi que a vulgaridade é um conceito mental, não tem nada a ver com algo físico, porque está no modo como as pessoas se vêm. Uma mulher pode ser sexy com pouca roupa e pode parecer horrível com salto alto. Tudo depende do nível de confiança que ela tem sobre sua própria pele."

O estilista Paul Surridge, diretor criativo da grife italiana Roberto Cavalli
O estilista Paul Surridge, diretor criativo da grife italiana Roberto Cavalli - Divulgação

Surridge prevê uma virada da consciência fashion em direção a um viés carnal de estilo, expresso em muita pele aparente nas coleções das grifes de luxo saturadas da docilidade do comprimento midi e das formas soltas.

"Atravessamos um momento sensorial na moda. As pessoas estão cansadas dessa fantasia de princesa para adolescentes. É um novo tempo provocativo, em que o corpo tem papel central na construção de uma imagem livre. Você verá muita pele em Paris", disse, adivinhando a nova queima de sutiãs proposta nas passarelas da capital francesa dias depois da entrevista.

Para ele, não há intenção de protesto no desnudamento vindouro, e sim uma tentativa de celebrar as características de cada pessoa. Mais uma vez, Surridge conecta seus dias cariocas ao novo estado de estilo do mundo.

"É tudo sobre confiar em seu biotipo. Se você é skinny, assuma, se tem uma bunda grande, celebre-a. O período de nostalgia do tradicionalismo acabou, a estética madame ficou para trás", comemora o estilista.

"O sexy, que para mim não é um uniforme e pode significar até como você deixa aberto um botão da blusa, é o novo 'mindset' da moda."

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