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Flavio Cafiero alia clima caótico do Brasil a tragédia familiar

Revelação da nova literatura nacional, autor carioca lança 'Espera Passar o Avião', seu segundo romance

João Perassolo
São Paulo

Quando Flavio Cafiero chamou seus amigos para o lançamento de seu novo romance, "Espera Passar o Avião", no Rio de Janeiro, ele aproveitou a ocasião para fazer um manifesto. O convite no Facebook do escritor afirmava que ele era gay e artista, e que talvez alguns de seus conhecidos que apoiam o presidente eleito Jair Bolsonaro se sentissem incomodados com isso. "Umas dez pessoas não foram, mas que diferença faz? Vou vender dez livros a menos?", comenta o autor. 

A postura militante ganhou tons amenos para a sessão de autógrafos do livro em São Paulo —no último sábado (27), apenas um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais. "Dia de ficar junto, de dizer que não tem ninguém sozinho", dizia o convite postado em sua conta no Instagram.

O escritor Flavio Cafiero
O escritor Flavio Cafiero - Renato Parada

O recado do escritor para um país que chegou a uma "situação limite", como diz, foi dado. Finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura com seu primeiro romance, "O Frio Aqui Fora" (2013), Cafiero não se furta, em sua literatura, em abordar o Brasil que leva "empreiteiros e políticos para a cadeia" e coloca "a Petrobras em um mar de lama", como afirma o narrador do novo livro.

Na trama, Felipe, um técnico de som abastado que mora em Lisboa, volta para o Rio de Janeiro, sua cidade natal, com o objetivo de rodar um filme com seu melhor amigo, Zé. O projeto, a ser realizado durante três semanas "sob o massacre solar do Rio de Janeiro", acaba sendo um duplo acerto de contas do personagem. Por um lado, com uma cidade chacoalhada pelos protestos de junho de 2013 e em obras intermináveis pré-Olimpíadas; por outro, com um fato ocorrido no passado: a morte do irmão mais novo, Fábio, com apenas 12 anos.

Carioca, Cafiero entende o Rio como uma espécie de laboratório de experimentos que acontecem posteriormente no Brasil todo. "O Rio teve o Crivella antes do Bolsonaro", brinca, em referência ao prefeito da cidade, Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. O autor diz ainda duvidar da "máscara de homem feliz do brasileiro" que a cidade representa. No romance, o protagonista tenta se desvencilhar dessa camisa de força o quanto pode, soando convincente em certos trechos e mimado em outros.

Em paralelo à rodagem do filme, Felipe é assombrado pelas memórias da morte do irmão, fato que retorna em diversos momentos do texto, sempre envolvido em incertezas. "O moleque se encanta com o beija-flor ou a borboleta, levanta a janela e se arrisca no parapeito, estica o braço, aí se desequilibra, e fim. Não é bonito, zero de poesia, não, um menino de 12 anos já conhece os perigos, é de esperar, não pode ter sido assim", titubeia o narrador.

A barulheira de uma mente atormentada pela tragédia familiar aliada ao clima caótico do Brasil vão, gradativamente, deixando o protagonista surdo.

A poluição sonora é como o avião passando a que se refere o título do livro. Para Cafiero, o avião barulhento é uma metáfora de tempos difíceis —incluindo os atuais.

Espera Passar o Avião

  • Preço R$ 59,90 (272 págs.)
  • Autor Flavio Cafiero
  • Editora Todavia

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