'Ministério do berimbau' é alvo de críticas no meio artístico

Gilberto Gil, Jô Soares, Milton Hatoum e Paula Lavigne comentam fim do MinC

Eduardo Moura João Perassolo
São Paulo

Após o anúncio, nesta quarta (28), da incorporação do Ministério da Cultura ao novo Ministério da Cidadania —que inclui, ainda, as pastas de Esporte e Desenvolvimento Social— a classe artística se mostra temerosa em relação aos rumos da área no governo de Jair Bolsonaro. 

O fim do MinC como ministério isolado é uma discussão que “já vem de outros momentos”, diz Gilberto Gil, que foi ministro da Cultura no governo Lula.

De fato, durante a gestão Temer, a pasta chegou a ser incorporada ao MEC, mas o governo voltou atrás.
“Um ministério isolado, autônomo nesse sentido, teria mais condições de satisfazer as demandas da cultura”, acredita Gil.

Apesar de lamentar o fim do MinC, ele diz que o fato de não existir um ministério com “cultura” no nome não é suficiente para vislumbrar o futuro do setor. Resta saber, diz Gil, se será prevista dotação orçamentária adequada, como funcionarão os departamentos setoriais e como será a aplicação de políticas culturais. 

“É uma incógnita, vamos ver como é que a política cultural chegará ao governo, com que grau de prestígio, e as relações com o congresso, estados e prefeitura”, diz o artista.

Menos diplomática, Paula Lavigne afirma que “eles estão entregando o que prometeram”. Para a produtora, o movimento de aglutinação do MinC representa ignorância e perseguição à classe artística.

Osmar Terra (MDB), designado para assumir o novo Ministério da Cidadania, disse à Folha não conhecer nada sobre cultura. “Só toco berimbau”, afirmou.

Ele também afirmou, ao ser anunciado para a pasta, que “cultura é um mundo problemático” e que pretende auditar a Lei Rouanet, principal mecanismo federal de financiamento às artes, que funciona por meio da dedução de impostos.

Gaúcho e filiado ao MDB, Terra é ex-ministro do Desenvolvimento Social do governo de Michel Temer.

“Ele vai ter que provar que toca berimbau, porque é superdifícil”, diz Lavigne. “Com essa piadinha, mostra que não deveria ter sido escolhido.”

Jô Soares evoca Millôr Fernandes para tratar do assunto: “Todo país sempre se desenvolveu galgado em tecnologia e cultura. Você não pode abrir mão do desenvolvimento cultural. Com esse tipo de visão de juntar os ministérios, se há um que deveria estar fora disso, é justamente o da cultura. Cultura é indivisível. No Brasil, a única cultura que se desenvolve é a cultura de vírus. E acho que vai continuar sendo assim.”

Para a atriz e diretora Bia Lessa, o sentimento é de “tristeza profunda”. “O Bolsonaro dizia que ia colocar técnicos, experts no assunto. Isso [indicação de Terra] é uma quebra de promessa”, diz.

Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, destaca o contexto em que ocorre a extinção do MinC, uma vez que Bolsonaro foi eleito democraticamente e que seus eleitores aprovaram o discurso, repetido durante a campanha, de diminuir o número de ministérios. “Atende a uma demanda legítima na medida em que a população votou nessa proposta.”

“O que me deixa mais tranquilo é que ministério não foi aglutinado à Educação, que é um ministério muito grande, tem demandas de escala desproporcionais a outras pastas.”

Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro, não acredita que a mudança seja o fim da política cultural. “Não estou encarando como uma extinção perder a sua autonomia”, diz .

Terra é visto como um político de perfil conservador. Isso, para Barata, não é necessariamente um problema. “Espero que o gestor faça realmente uma gestão para o setor e que não prevaleça o seu gosto pessoal”. Do futuro ministro, “todos falam que é um político experiente”, diz.

O escritor Milton Hatoum conta que não sabia da junção do MinC com outras pastas, o que nomeou de “diluição”. Também não conhecia Osmar Terra. “Podia ser ‘Osmar Terra em Transe’, né? Essa diluição é uma espécie de revival de ‘Terra em Transe’: um governo de alucinados”, afirmou. “Como estamos distantes do Gilberto Gil.”

Já o músico Romulo Fróes acredita que a aglutinação da Cultura com outros assuntos “é um símbolo do governo que virá”.

“O MinC vai estar lá porque tem que estar lá, será chamado para organizar a festa de abertura da Olimpíada. É parecido com a minha escola pública nos anos 1970, que tinha educação artística para ter, mas que de arte mesmo não se ensinava nada”. Ele não conhecia o novo ministro.

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