Na era do streaming, super-heróis de Stan Lee ajudaram a salvar o cinema

Cocriador de 'Homem-Aranha', Thor e Hulk, americano morreu aos 95 anos

Guilherme Genestreti
São Paulo

Stanley Martin Lieber queria se tornar o autor do grande romance americano. Não queria, por causa disso, usar o seu nome naqueles “quadrinhos bobos”, afirmava. Eis que tascou ali: Stan Lee.

No universo das letras, Lieber não cumpriu o prometido. Mas no mundo pop, Lee se tornou figura central que redefiniu a história de Hollywood.

Nos anos 1960, quando seus super-heróis humanizados já tinham causado uma revolução nos quadrinhos, a elite literária ainda lhe torcia o nariz. Federico Fellini, não —numa passagem por Nova York, fez questão de ir ao escritório de Lee para conversar sobre o Homem-Aranha, lembra.

O quadrinista não era ingênuo. Em 1980, deixou Manhattan, sede de suas histórias, e foi para a Califórnia estreitar relações com Hollywood. 

O Hulk já era seriado e até o Homem-Aranha já tinha aparecido na TV, mas o cinema ainda não havia sido conquistado pela Marvel. Já sua rival, a DC Comics, havia emplacado com sucesso uma versão em filme do Super-Homem.

As décadas seguintes só viram crescer o interesse nos super-heróis. A Marvel despejou “Blade” e “Homens de Preto”, mas não ousou levar às telas nenhum herói de seu primeiro time até 2000, com “X-Men”. 

O filme se revelou um sucesso estrondoso e superou as expectativas. Dois anos depois veio o primeiro “Homem-Aranha”,  fiel ao transpor para o cinema as nuances do herói nos gibis. Abriu-se a porta a uma torrente de outros super-heróis, como “Demolidor”, “Elektra” e“Hulk”, que colheram péssimas críticas. 

Em 2005, descontente com o rumo das adaptações e querendo se desvincular das distribuidoras tradicionais que as haviam lançado, a Marvel resolve se transformar num estúdio. E investe em heróis cujos direitos ainda não haviam sido negociados, como os Vingadores, grupo que une o Homem de Ferro, o Capitão América, o Thor e outros.

O ano de 2008 marcou o começo do chamado Universo Cinemático Marvel, ancorado na ideia de um ambiente compartilhado por vários personagens, que pipocam em vários filmes. A fonte desse universo, claro, são as histórias criadas por Stan Lee. É por isso que se vê Hulk em filme do Thor, Homem de Ferro no filme do Homem-Aranha etc.

Desde então foram lançados cerca de 20 desses títulos, que juntos faturaram US$ 6,8 bilhões (R$ 25,5 bilhões). Salvo em 2009, ao longo de toda a década os estúdios Marvel emplacaram ao menos um de seus filmes entre os dez mais vistos do ano. “Pantera Negra”, que também é dela, é o filme mais visto de 2018. 

Outro ponto em comum: Lee faz ponta em todos esses filmes, em geral com seus indefectíveis óculos escuros. 

Numa década em que o streaming sacudiu a forma como se consome audiovisual, os heróis da Marvel foram os grandes chamarizes para as salas de cinema. Viraram sinônimo de blockbuster e alteraram a forma de se lançar filmes: com estrondo nas estreias e menos tempo em cartaz.

Lieber pode não ter mudado a literatura, mas transformou o cinema. 

Erramos: o texto foi alterado

O faturamento de US$ 6,8 bilhões equivale a cerca de R$ 25,5 bilhões. A informação foi corrigida. 

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