Novo álbum de Seu Jorge tem canção de Milton Nascimento e produtor de Beastie Boys

Em 2019, artista estreia três filmes, além de disco com letras em português e inglês

Fernanda Ezabella
Los Angeles

Quando não está fazendo crochê na sua conta do Instagram ou jogando FIFA no Playstation, o cantor e compositor Seu Jorge se divide entre música e cinema. Os últimos meses foram dedicados ao seu novo álbum, gravado em Los Angeles, e os próximos serão voltados à atuação num novo seriado no Brasil e divulgação de três longas-metragens.

“É um processo de desconexão de um lugar para outro. Música e cinema são duas práticas e sentimentos diferentes. Faço isso com o maior prazer, já estou calejadinho”, disse o músico de 48 anos à Folha, após um show em Los Angeles, em outubro. “No cinema, estou lá para servir, sou só um instrumento, sou guiado. Já na música é o contrário, todo mundo trabalha para que eu aconteça. Trabalho com solidão, com minhas ervas ali, com parcerias.”

O novo álbum tem título provisório de “The Other Side/O Outro Lado” e foi feito no estúdio de Mario Caldato Jr, famoso por ter trabalhado com os Beastie Boy e hoje procurado por grandes nomes da música brasileira. Haverá inéditas e regravações, como uma canção de Milton Nascimento, e convidados como Maria Rita e Zap Mama.

Ele tem trabalhado nas músicas nos últimos cinco anos e promete um disco “mais bossa, mais clássico”, com letras em português e inglês.

“É um lado meu que as pessoas ainda talvez não tiveram oportunidade de conhecer”, disse. “São músicas que podem ficar atemporais, ‘timeless’ como eles dizem aqui. É uma busca muito pessoal pela beleza, por aquilo que pode emanar nas pessoas e contagiar, criar uma atmosfera.”

O show em Los Angeles foi um tributo a David Bowie e foi quase que uma despedida da música já que ele voltava ao Brasil dois dias depois para começar as preparações para o novo seriado. “É sobre uma mulher batalhadora, de comunidade, e os desafios que enfrenta na vida. Vou fazer o irmão dela”, contou.

Seu Jorge estreia três filmes em 2019: “Pixinguinha: Um Homem Carinhoso” e “Mariguella”, nos quais faz os protagonistas, e “Abe”, de Fernando Grostein Andrade.

Esta foi a terceira temporada de Seu Jorge no exterior com as músicas do filme “A Vida Marinha com Steve Zissou” (2004), versões em português de clássicos de Bowie. Ele intercalou o show contando histórias em inglês sobre a aventura de trabalhar com o diretor Wes Anderson.

Disse que, como nasceu na favela no Rio de Janeiro, não conhecia a discografia do Bowie, “aquele cara que se parece com o Billy Idol”, brincou. E como escreveu a versão em português de “Rebel Rebel” em 15 minutos, ao ser pressionado por um produtor na Itália.

“Sua música é tão complexa, tem tanta poesia”, disse no camarim. “Bowie fez muita diferença na minha vida. Ele era bom ator também, estava sempre à frente de todo mundo. Tento seguir seus passos agora.”

Como era véspera das eleições, mandou um recado em português para os brasileiros presentes, como a apresentadora Fernanda Lima. “Meu posicionamento sempre será a favor da diversidade, das minorias e das lutas sociais. Porque faço parte de boa parte das lutas sociais brasileiras”, disse, antes de puxar o coro “ele não”.

Desde 2013, Seu Jorge tem residência em Los Angeles. Ele estava na capital americana apresentando o mesmo show quando o atual presidente Donald Trump fez seu discurso de recém-eleito, em 2016.

“Não convivo com a política aplicada pelo Trump, mas entendo que parece que os EUA estão atravessando bons momentos, bons números naquilo que seus eleitores esperavam”, disse. “Ele demonstrou certa fibra. Mas pode ser que se isole dentro de um campo geopolítico mundial em função do fortalecimento de certas ideologias.”

Sua mudança para os EUA veio com a vontade de dar melhor educação para suas três filhas. “Elas adoram cantar e atuar. E no Brasil não dá para achar uma escola assim. Aqui tem mais oportunidades para elas e para mim. É uma educação muito boa”, disse.​

Seu Jorge também elogiou a indústria do entretenimento nos EUA, rica não só para o público como também para a produção de cultura e intercâmbio com outros artistas. “Todas suas grandes metrópoles têm uma explosão de cultura. Tem sido uma experiência muito intensa e maravilhosa.”

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