Theatro Municipal do Rio terá 5º presidente em quatro anos

Instituição vem se recuperando de uma forte crise que se arrastou por cerca de dois anos

Fachada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro durante velório da atriz Tônia Carrero, em março de 2018

Fachada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro durante velório da atriz Tônia Carrero, em março de 2018 José Lucena/Futura Press/Folhapress

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Recuperando-se de uma crise, o Theatro Municipal do Rio terá seu quinto presidente em quatro anos. O economista e produtor cultural carioca Fernando Bicudo foi exonerado nesta segunda (12) após 11 meses no cargo.

Quem vai substitui-lo é o atual chefe de gabinete da fundação, Ciro Pereira da Silva, que trabalha no órgão há 42 anos, conforme foi publicado no "Diário Oficial" do estado. A Folha não conseguiu contato com o atual nem com o futuro presidente até a publicação deste texto.

Em nota, a Secretaria de Estado de Cultura se limitou a agradecer Bicudo e a dizer que Pereira é um "servidor querido e admirado por todos" e "possui amplo conhecimento acerca do funcionamento da entidade", adquiridos "incansavelmente" no tempo em que atuou ali.

A partir da esq., o presidente exonerado do Municipal Fernando Bicudo, a bailarina Ana Botafogo, o vice-presidente Aldo Mussi e o novo presidente, Ciro Pereira Silva
A partir da esq., o presidente exonerado do Municipal Fernando Bicudo, a bailarina Ana Botafogo, o vice-presidente Aldo Mussi e o novo presidente, Ciro Pereira Silva - Divulgação/Theatro Municipal do Rio

Questionada, a pasta não informou o motivo da troca de comando. Segundo o jornal O Globo, a exoneração teria ocorrido depois de uma discussão entre Bicudo o presidente do teatro e o secretário de Cultura, Leandro Monteiro.

O secretário teria pedido que Bicudo emprestasse o teatro de graça para a associação filantrópica Legião da Boa Vontade, para uma apresentação do Corpo de Bombeiros --Monteiro é coronel da corporação.

Bicudo, porém, teria dito que só o faria com aprovação do governador Fernando Pezão (MDB), irritando Monteiro. Os dois já haviam se desentendido antes por problemas com o repasse de verbas para a fundação.

Nos últimos quatro anos, foram presidentes da fundação o maestro Isaac Karabtchevsky (jan. a jun.2015), o compositor João Guilherme Ripper (jun.2015 a fev.2017) e os secretários de Cultura André Lazaroni (mar. a nov.2017) e o próprio Leandro Monteiro (nov.2017 a jan.2018). Nenhum ficou mais do que 19 meses no cargo.

O ator Milton Gonçalves também chegou a ser anunciado como presidente após Ripper ser demitido, em fevereiro de 2017, mas seu nome foi desconsiderado duas semanas depois por "conflito de interesse", por ele integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

O Theatro Municipal vem se recuperando de uma forte crise que se arrastou por cerca de dois anos, reflexo da decadência econômica e política do estado do Rio de Janeiro como um todo.

A irregularidade no pagamento de salários no teatro começou no final de 2015, inicialmente apenas atrasando o dia do recebimento, até que os vencimentos começaram a se acumular. A instituição encerrou 2017 com funcionários endividados e artistas frustrados, após um ano sem apresentar nenhuma grande obra.

Muitos tiveram que recorrer a trabalhos extras para complementar a renda, e parte chegou a receber cestas básicas arrecadadas em campanha. No ano passado, os servidores fizeram ao menos três protestos na escadaria da casa para chamar a atenção para a situação.

Os salários só foram regularizados pelo estado em janeiro deste ano, duas semanas depois que Bicudo entrou na presidência. Ele foi escolhido após a bailarina Ana Botafogo recusar o posto por não ter recebido do governo Pezão a garantia de que os pagamentos seriam feitos.

Em entrevista à Folha em janeiro ao assumir o cargo, o presidente demitido nesta segunda disse que tinha ciência de que estava chegando após um ano "catastrófico" para o Municipal.

Uma das primeiras decisões de Bicudo foi não ter mais um diretor-artístico, mas um colegiado formado pelos diretores da ópera (Pier Francesco Maestrini), do balé (Ana Botafogo e Cecilia Kerche) e da orquestra (Tobias Volkmann).

Volkmann acabou deixando o posto em maio e foi substituído pelo maestro Cláudio Cruz, que também pediu exoneração nesta segunda.

 

Os últimos presidentes do Theatro Municipal do Rio

Atriz e cineasta Carla Camurati 
Período: 2007 a jan.2015
Por que saiu: para assumir a curadoria da parte cultural da Olimpíada de 2016

Maestro Isaac Karabtchevsky 
Período: jan. a jun.2015
Por que saiu: pediu demissão após atrito

Compositor João Guilherme Ripper
Período: jun.2015 a fev.2017
Por que saiu: foi demitido

Ator Milton Gonçalves
Período: 23.fev a 7.mar.2017
Por que saiu: não chegou a assumir; seu nome foi descartado por conflito de interesses

Secretário de Cultura André Lazaroni 
Período: mar. a nov.2017
Por que saiu: foi exonerado da secretaria para voltar à função de deputado estadual

Secretário de Cultura Leandro Monteiro 
Período: nov.2017 a jan.2018
Por que saiu: assumiu até Bicudo aceitar o cargo

Produtor cultural Fernando Bicudo
Período: jan. a nov.2018
Por que saiu: foi exonerado após atrito

Chefe de gabinete do teatro Ciro Pereira da Silva
Período: assume em nov.2018

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