Ana Cañas abraça ativismos e feminismo em seu quinto disco

'Todxs' retrata imersão da cantora em causas sociais 15 anos após surgir entretendo a elite na noite paulistana

Rafael Gregorio
São Paulo

É 2006. Ana Cañas está no Baretto, o bar do restaurante Fasano, em São Paulo, cantando Ella Fitzgerald para homens e mulheres de negócios e da alta sociedade.

Corta.

É abril de 2018: Cañas está em Curitiba, na frente da sede da Polícia Federal, cantando “O Bêbado e a Equilibrista” para militantes acampados em protesto contra a prisão do ex-presidente Lula.

De entretenimento da elite na noite paulistana a voz engajada na esquerda, como foi que isso aconteceu?

A resposta, segundo a artista, está no disco “Todxs”, publicado nas plataformas digitais há um mês e cujo show de lançamento oficial acontecerá em São Paulo, em fevereiro.

Em seu quinto álbum, a paulistana de 38 anos deixa as letras existenciais e abraça a militância, como explica em conversa pontuada por menções a nomes como a alemã Hannah Arendt e a filósofa brasileira Djamila Ribeiro.

“Esse disco não nasceu da música, mas da necessidade de sair do lugar de espectadora.” A mudança germinou, ela diz, após experiências distribuindo comida a pessoas em situação de rua, em 2014.

A partir daí, ela passou a acompanhar movimentos sociais e tomou partido nas eleições: apoiou Fernando Haddad, derrotado por Jair Bolsonaro na disputa.

Mas esse posicionamento não significa uma adesão acrítica com relação aos governos petistas. “Não sou cientista política, mas além do mensalão, faltou uma reforma política profunda que não veio.”

O primeiro fruto dessa politização foi o vídeo da canção “Respeita”, em 2017, que conta com 86 mulheres ativistas.

O passo seguinte foi a gravação do disco, o primeiro sem uma gravadora —Cañas lançou seus álbuns anteriores pela Sony e pela Som Livre.

A escolha pelo caminho independente foi fruto de uma conjunção de fatores, ela diz.

“Não estava numas de submeter demos à avaliação de diretores artísticos. O trabalho tem temática feminista forte, e os executivos de gravadora que conheci são todos homens brancos e héteros. Como eu tinha acabado de levantar uma grana em uma turnê, resolvi investir do bolso.”

Cañas também passou a vender seus shows. Nesse “faça você mesma”, fez mais de 50 apresentações em 2018, um recorde pessoal, e ultrapassou 1 milhão de ouvintes mensais no Spotify —para fins de comparação, Karol Conká tem 750 mil ouvintes na plataforma.

O álbum gira em torno de temas políticos da primeira à 12ª faixa. Feminismo, liberdade sexual e defesa da legalização da maconha, por exemplo, inspiram letras como as de “Lambe-Lambe”, manifesto pelo prazer sexual feminino.

Outra faixa é “Eu Dou”, dos versos: “Dou uns pega, dou um trago/ Nas ideias dou um trato/ Dou pros lekes, dou pras mana/ Corpo laico a gente ganha/ Eu dou, eu dou, eu dou, eu dou, eu dou, amor.”

Essa essência é traduzida visualmente na capa do disco, com uma cobra entre pernas femininas, dando um bote.

“Ilustra o clitóris e está atacando: quem tem medo de boceta? Vamos falar sobre isso?”

A maior parte das canções são dela. Há duas escritas com Arnaldo Antunes, parceiro há anos, e uma com o rapper Sombra, além de versões como a de “Eu Amo Você”, de Cassiano e Sílvio Rochael.

Sonoramente, chamam a atenção certos timbres que lembram o hip-hop. “Tinha feito um disco de rock em 2015 e sentia aquela linguagem defasada”, explica Cañas.

O novo álbum já tinha 40 músicas prontas quando a cantora pensou em testar batidas eletrônicas, no que foi essencial a contribuição do músico Thiago Barromeu, com quem assina a produção.

Mas, ao contrário do rap, em que primeiro se cria a batida e depois as rimas, em “Todxs” o caminho foi o inverso —canções feitas com violão, teclado e bateria foram refeitas.

Outro desafio, ela diz, foi não ceder a fórmulas próprias que deram certo no passado. 

“Chamei amigos para uma audição e eles gongaram uma música que parecia ‘Esconderijo’, trilha de novela da Globo em 2009: ‘Essa é a velha Ana, não peça ajuda ao passado!’.”

A cantora diz ter sido aconselhada a temer as patrulhas. “Muita gente disse que eu tinha muito a perder. Tinha mesmo: 10 mil seguidores no Instagram no dia em que publiquei a primeira foto com Lula. Mas, após um ano, dobrei meu total de seguidores.”

Driblou ataques de hackers e ofensas, “quase sempre com as pejorativas do patriarcado: ‘louca’, ‘burra’, ‘puta’”, e agora vê na presidência de Bolsonaro “uma incógnita” que pode estimular a classe artística.

“Cada um deve agir conforme a sua consciência; eu ter me posicionado não é recado para ninguém. Mas se você vai lançar um disco em 2018, com tudo o que está ocorrendo no país, vai cantar o quê? Quem falar só de amor talvez não encontre tanta ressonância.”

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