Disney ressuscita Mary Poppins em musical à moda antiga para novos fãs

Mais de meio século após original, estúdio resgata uma de suas maiores personagens

Rodrigo Salem
Los Angeles

A escritora P. L. Travers, a criadora da icônica personagem Mary Poppins, nunca escondeu sua antipatia pela adaptação cinematográfica de 1964 —tanto que sua relação problemática com Walt Disney virou tema do filme “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” (2013).
 
O musical estrelado por Julie Andrews no papel da babá mágica que vem dos céus para ajudar uma família em crise virou um dos marcos do estúdio ao faturar cinco Oscar.

Mesmo assim, Travers não perdoou as mudanças de Disney e sempre recusou ofertas para sequências, a mais famosa nos anos 1980, quando o executivo Jeffrey Katzenberg começou a reestruturar a casa do Mickey e queria Andrews como uma Poppins mais velha.

Com a morte da autora, em 1996, a relação entre a família Travers e a Disney foi reerguida. Em 2015, o estúdio finalmente anunciou “O Retorno de Mary Poppins”, que estreia nesta quinta (20), 54 anos após o original.  “O maior intervalo entre dois episódios da história do cinema”, exalta Rob Marshall, um veterano de musicais como “Chicago” (2002), que precisou passar pela aprovação do espólio para assumir como diretor do longa.
 
“Sempre achei que não haveria possibilidade de uma sequência. Mas a Disney trabalhou ao lado da família para mostrar que seria algo novo, mas realizado com carinho e respeito pelo original”, explica Marshall. “Mary Poppins pode ser como James Bond, um personagem que foi reimaginado diversas vezes. Topei o projeto porque não queria que outra pessoa assumisse o material e não tivesse o mesmo nível de respeito que tenho.”
 
Tomando como base elementos espalhados por quatro dos oito livros protagonizado por Mary Poppins, Marshall e o roteirista David Magee ambientaram a sequência durante a Grande Depressão britânica de 1930 —duas décadas após os eventos do primeiro longa. Michael e Jane Banks, as duas crianças que eram o centro do filme anterior, se tornaram um viúvo falido (Ben Whishaw) com três filhos e uma sindicalista (Emily Mortimer).
 
Para o papel principal, o diretor tinha pretendentes americanas, porém decidiu apostar na inglesa Emily Blunt, com quem trabalhou em “Caminhos da Floresta” (2014). A atriz, que tinha acabado de ter a segunda filha, passou a treinar canto e dança para se preparar para o papel.

“Claro que pensei duas vezes quando Rob me chamou para assumir uma das propriedades mais famosas da Disney”, conta Blunt à Folha. “Mas ele é um amigo querido e minha rede de segurança. Não tinha ideia do impacto. Somente quando revelaram meu nome que comecei a ouvir barulhos de todos os lados. Precisei deixar tudo isso de lado.”
 
Marshall conta que Andrews não quis participar da sequência porque “o show precisa ser de Emily”, mas que ela abençoou a produção. Blunt, por sua vez, evitou rever o original e mergulhou nos livros para construir uma nova Poppins. “Nunca ousaria imitar Julie Andrews, então nem tentei”, brinca ela. “Sou é mais fiel à literatura. Poppins é engraçada, insana, vaidosa e rude, além de possuir um grande espírito para aventuras. É um papel delicioso.”
 
Para ajudar nesta transição para uma nova geração, Marshall trabalhou com os compositores Scott Wittman e Marc Shaiman (“Hairspray”) e convocou Lin-Manuel Miranda, criador de “Hamilton”, a grande sensação da Broadway, para o papel de Jack, o acendedor de postes de Londres.

“Nem eu teria coragem de sonhar com uma sequência de ‘Mary Poppins’, então estou honrado de terem pensado em mim, já que é meu primeiro grande papel no cinema”, diz o dramaturgo.
 
Todos os envolvidos, no entanto, acreditam que “O Retorno de Mary Poppins”, um musical à moda antiga e com mensagens de esperança, pode ser um farol em tempos sombrios.

“Precisamos equilibrar esse mundo com mais esperança e fantasia. Trabalhei durante três anos no filme e, a cada dia, ele se tornava mais importante”, diz Rob Marshall. “Estamos passando por um período de fragilidade e relutamos em sentir esperança. Mas espero que o filme mude um pouco isso com sua falta de cinismo”, torce Blunt antes de revelar como seu marido, o também ator John Krasinski (“Um Lugar Silencioso”), define o filme: “É uma bomba de alegria”.

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