Descrição de chapéu Obituário Amós Oz (1939 - 2018)

Escritor Amós Oz morre em Israel, aos 79 anos, em decorrência de um câncer

Defensor do diálogo entre árabes e judeus, autor publicou obras como "Caixa-Preta" e "Como Curar um Fanático"

 O escritor israelense Amos Oz durante conferencia no evento Fronteiras do Pensamento, em São Paulo
O escritor israelense Amos Oz durante conferencia no evento Fronteiras do Pensamento, em São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapress
Tel Aviv

O sobrenome que adotou, ainda jovem, significa força ou coragem em hebraico. E, certamente, a potência e a ousadia da literatura de Amós Oz acompanharam e refletiram a história de Israel, inspirando gerações de leitores no país e em todo o mundo.

A morte de Oz, aos 79 anos, anunciada repentinamente nesta sexta-feira (28), pegou o país de surpresa ao anoitecer do shabat (o sábado judaico).

"Meu amado pai faleceu de câncer, agora há pouco, após uma rápida deterioração, quando estava dormindo em paz, cercado pelas pessoas que o amam", escreveu sua filha Fania Oz-Salzberger, ao anunciar a morte pelo Twitter. "Para aqueles que o amam, obrigada."

Um dos autores mais queridos do país e mais aclamados da literatura mundial, Oz escrevia como poucos sobre Israel e sua complexidade, sempre com compaixão pelos personagens que representavam aspectos diversos de uma realidade intrincada.

Nada, em seus romances, contos e novelas, era descrito com a superficialidade comum do começo do século 21.

Ele escrevia com clareza e aparente simplicidade, desenvolvendo as tramas aos poucos. Mas colocava em primeiro lugar os pensamentos e sentimentos de seus personagens, que pareciam sair diretamente das ruas de Israel.

"A tristeza nos abateu", afirmou o presidente israelense Reuven Rivlin. "Ele era um gigante literário. Nosso artista mais glorioso. Descanse em paz, querido Amós."

Amós Oz publicou 40 livros, sendo 14 romances, 5 coletâneas de contos e novelas, 2 livros infantis e 12 coletâneas de artigos e ensaios. Suas obras foram traduzidas para 45 idiomas.

Oz é autor de livros como "Caixa-Preta", "Judas" e "Como Curar um Fanático".

Esteve em São Paulo no ano passado para palestras na Casa do Povo e no evento Fronteiras do Pensamento.

Um de seus livros mais queridos é a autobiografia "De Amor e Trevas", lançada em 2002, que narra a comovente história de sua família em Jerusalém, onde passou a juventude, incluindo a depressão e o suicídio de sua mãe, quando ele tinha 12 anos. O livro virou filme, em 2015, com direção e atuação de Natalie Portman.

Em 1967, Oz lutou na Guerra dos Seis Dias e, em 1973, na do Yom Kippur. Sua experiência no front ajudou a transformá-lo em uma das principais vozes em defesa do diálogo entre israelenses e seus vizinhos árabes.

Ele se destacou como ferrenho defensor da solução chamada de dois Estados para dois povos, que prega a criação de um Estado palestino vivendo lado a lado com Israel. No livro "Como Curar um Fanático", ele defende que os dois lados precisam fazer concessões para resolver um embate que, segundo ele, não é religioso ou cultural, apenas político. Oz também foi um dos fundadores da ONG israelense Paz Agora, criada na década de 1970.

Nos anos 1990, foi um dos primeiros a elogiar e apoiar os Acordos de Oslo, que criaram a Autoridade Nacional Palestina e tinham como objetivo a criação de um Estado. Também era um vociferante crítico dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.

Por tudo isso, foi chamado de traidor por compatriotas mais à direita no leque político israelense. Mas, como ele mesmo dizia, não era um pacifista. Ele se autoproclamava "peacenik", alguém que protesta contra guerras.

Dizia achar ótima a ideia de dar a outra face, desde que fosse a face de outra pessoa.

"Não aceito a ideia de que o direito universal de autodefesa não se aplique a Israel", escreveu certa vez na revista americana Time.

Oz recebeu a honraria mais importante do país, o Prêmio Israel. Foi agraciado também por diversos outras láureas, como a Legião de Honra, na França, o Prêmio Goethe, na Alemanha, e o Príncipe de Astúrias, da Espanha. Mas, apesar de ser indicado há anos para o Nobel, nunca recebeu a distinção da Academia Sueca.

Nascido Amós Klausner (ele mudou de sobrenome depois da morte da mãe) em Jerusalém em 1939, nove anos antes da criação do Estado de Israel, o romancista se formou em filosofia e literatura na Universidade Hebraica e casou, aos 21 anos, com Nili, com quem teve três filhos. Logo depois do casamento, com 22 anos, começou a publicar livros.

Seu primeiro best-seller, "Meu Michel" (1968), fez com que seus colegas do kibutz Hulda, a comunidade socialista agrícola onde morava, começassem a levá-lo a sério como escritor. Por mais de dez anos ele seguiu trabalhando no kibutz como todos os outros moradores, por vezes como garçom no refeitório nos fins de semana.

Avesso a multidões, Oz decidiu, em 1986 e já um autor bastante conhecido, morar em Arad, uma pequena cidade no meio do deserto do Negev, no sul de Israel. Só voltou à cidade grande há poucos anos, quando se estabeleceu num apartamento de classe média em Tel Aviv. Foi na cidade que morreu.

Em nota, o editor Luiz Schwarcz, presidente do Grupo Companhia das Letras, que publica as obras de Oz no Brasil, lamentou a morte do amigo. "Amós Oz é um homem de generosidade ímpar. Me recuso a proferir o verbo no passado, pois ele estará comigo por toda a vida. É dos grandes amigos que fiz, com quem aprendi tanto. Não sabia do recrudescimento da doença contra a qual lutou tanto", escreveu o editor.

"Na última vez em que falamos, ele estava celebrando os bons resultados do tratamento. O mundo de hoje precisa de mais homens como ele. Mas não é fácil encontrá-los."

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