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Livros

Escritora transforma livro inclassificável em experiência poética

'Parque das Ruínas' é a mais nova obra de Marília Garcia, que venceu o Prêmio Oceanos este ano

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE

Parque das Ruínas

  • Preço R$ 30 (96 págs.)
  • Autor Marília Garcia
  • Editora Luna Parque

"Parque das Ruínas", o mais novo livro de Marília Garcia, que este ano venceu o Prêmio Oceanos com "Câmera Lenta" (Companhia das Letras), é uma espécie de diário, ensaio, poesia, em suma, um livro inclassificável, no qual as imagens —sobretudo fotografias— ganham papel de destaque.

É também um livro performance, pois, segundo a poeta, seus textos "foram escritos para serem falados"; ou são uma aula, já que muito do que agora se lê foi apresentado no encerramento de uma disciplina e em eventos literários Brasil afora.

Nesse sentido, seu livro lembraria as aulas de Roland Barthes transcritas e compiladas em volumes impressos.

Em seu livro/aula/poesia, Marília começa citando o trabalho "The Topography of Tears", da artista americana Rose-Lynn Fisher, e não se esquece de informar ao leitor o endereço do site da artista para que ele vá até lá e pesquise por conta própria, numa espécie de pedagogia preconizada por Jacques Rancière no livro "O Mestre Ignorante".

A poetas Marília Garcia - Keiny Andrade/Folhapress

Contudo, o que poderia ser apenas instrutivo transforma-se em experiência poética, pelo inusitado das informações.

O livro divide-se em duas partes: a primeira, homônima, parece ser feita de detritos: restos de lágrimas, de memórias, de ideias, de algo que sobra. A pergunta que surge desses destroços é: "Como fazer para passar do céu para as ruínas e depois voltar para o céu"? Marília aproveita o nome de dois museus do Rio de Janeiro, Chácara do Céu e Parque das Ruínas, vizinhos, para prosseguir em sua reflexão.

É também um estudo sobre o olhar, ou melhor, sobre como olhar o cotidiano, sobre a dificuldade em encontrar importância no que parece ser feito de rebotalhos, como diria Maurice Blanchot.

É dele, aliás, a frase que poderia resumir as investigações de Marília baseadas em Georges Perec: "o mundo inteiro nos é oferecido, mas por meio do olhar. Estaremos livres da preocupação com os acontecimentos assim que tivermos posto sobre a sua imagem um olhar interessado, em seguida simplesmente curioso e, por fim, vazio mas fascinado".

O ensaio enquanto experiência e o poema enquanto ensaio (no mais amplo sentido) são essenciais para Marília, que intitula a segunda parte de seu livro "O Poema no Tubo de Ensaio", no qual faz um elogio a essa "tentativa de falar", seja através do poema ou de qualquer outro meio de experimentar a fala.

Quando o livro chega ao fim, aparecem duas imagens no colofão: o Museu Nacional, desenhado, em 1831, por Jean-Baptiste Debret, e a fotografia atual das ruínas do edifício, o que reforça a atualidade do conceito da poeta.

Dirce Waltrick do Amarante é ensaísta, tradutora e professora da Universidade Federal de Santa Catarina.
 

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